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quinta-feira, 30 de setembro de 2010

A Igreja da Multidão


Em Mateus 16: 13-20, Jesus faz duas perguntas aos seus discípulos: A primeira pergunta é: “Quem diz o povo ser o Filho do homem?” Jesus queria saber o que o povo pensava dele; ou seja, qual a identidade que o povo atribuía a Jesus? E a segunda pergunta foi: “Mas vós, continuou ele, quem dizeis que eu sou?” Jesus agora quer saber o que os seus discípulos pensavam dele? Porque toda relação com o outro surge a partir da identidade que lhe atribuímos, independente se essa identidade atribuída corresponde ou não com a identidade assumida pelo outro. Estas duas perguntas nos levam a perceber que Jesus considera dois tipos de pessoas: a multidão e o discípulo. Jesus quer saber qual sua reputação diante do povo e como é visto o seu caráter diante dos seus discípulos. Disso, surgem duas igrejas: A Igreja da Multidão e a Igreja dos Discípulos.

Para a primeira pergunta é respondido que o povo atribuiu ao Senhor Jesus a identidade de um grande profeta, e comparavam Jesus aos marcantes profetas no passado de Israel: Elias, Jeremias e João Batista. Ou seja, Jesus está na mesma categoria e nível de identidade dos profetas e nada mais que isso. O povo errou a identidade de Jesus. Porque o povo tinha um relacionamento distante de Jesus. Na verdade, o povo nem sabia quem era Jesus e nem se importava com sua verdadeira identidade, porque buscavam exclusivamente os milagres que podiam receber de Jesus. O povo sempre estava perto de Jesus somente para buscar milagres, tanto que, certa vez, Jesus teve de orientar os discípulos a ter um barquinho à disposição caso ele fosse comprimido pelo povo que buscava seus milagres (Mc 3.9,10). Podemos chamar esse ajuntamento em torno de Jesus de A IGREJA DA MULTIDÃO. Esta igreja não conhece quem é Jesus e nem quer conhecê-lo, mas só sabe e só se importa em saber como extrair o máximo do poder de Deus para resolver seus problemas. E quais as características da igreja da multidão?

1. A igreja da multidão acredita que Jess é apenas mais uma opção de poder e milagre. Jesus era visto pelo povo como mais um semelhante a João Batista, Elias, Jeremias ou algum dos profetas (Mt 16: 14). Para muitos, Jesus não passa de mais um curandeiro poderoso, mais um deus no roll das divindades, mais uma opção na prateleira de abençoadores. Ou seja: A multidão enxerga Jesus como mais um e nada mais. Ou, na melhor das hipóteses, Jesus é considerado o maior de todos, mas nunca será o único. Por isso que temos hoje em dia há um ciclo de pessoas que encontram Jesus e logo em seguida passam para outros deuses opcionais. Ou, adicionam Jesus a sua lista de homens de Deus, curandeiros, divindades, anjos e espíritos protetores e evoluído. A igreja da multidão está aberta ao sincretismo religioso quando relativiza a identidade de Jesus aderindo uma fé genérica, subjetiva e idólatra. Mas não podemos esquecer que Jesus é singular: “Está e a vida eterna: que te conheçam, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo a quem enviaste”. (Jo 17:3).

2. A igreja da multião vê para crer ou só crê se ver. No deserto, o Diabo disse para Jesus: “Se és filho de Deus, ordena que estas pedras se transformem em pães”. (MT 4:3). O Diabo duvida da identidade de Jesus e insinua que Jesus provará que é Deus se fizer um milagre. No monte do calvário, pendurado na cruz, Jesus escuta o eco das dúvidas do Diabo na boca do povo. “E o povo estava li, olhando. E as autoridades o ridicularizavam, dizendo: Salvou os outros, então salve a si mesmo, se é o Cristo, o escolhido de Deus. Os soldados também zombavam, e aproximando-se, ofereciam-lhe vinagre e diziam: Se tu és o rei dos judeus, salva a ti mesmo”. (Lc 23:35-37). Assim, a igreja da multidão tem origem no Diabo, porque tem que vê para crer, ou crê se ver. A verdadeira fé não se alimenta de milagres extraordinários, visíveis e paupáveis. O povo de Israel cansou de ver milagres quase todo dia; mas, mesmo assim, se tornou mimado, murmurador, birrento, incrédulo e idólatra. A igreja da multidão tenta Deus quando tenta provar sua existência e poder através da operação de milagres diante do público incrédulo. Além do mais, a mesma multidão de crentes que vê os milagres de Jesus, logo em seguida, rejeita suas palavras com incredulidade. A mesma multidão que recebe Jesus com louvores de "hosana, bendito o que vem em nome do Senhor" é a mesma multidão que o rejeita, clamando uma condenação enfurecida: "crucifica-o". 

3. A igreja da multidão só busca Jesus por causa dos milagres. Logo após a multiplicação dos pães e peixes, Jesus é procurado pela multidão. “Quando o encontram do outro lado do mar, perguntaram-lhe: Mestre, quando chegaste aqui? Jesus respondeu: A verdade é que vocês estão me procurando, não porque viram os sinais miraculosos, mas porque comeram os pães e ficaram satisfeitos”. (João 6:26). Jesus discerne e revela as mais íntimas motivações e intenções da multidão em buscá-lo: Satisfazer seus desejos gulosos e insaciáveis por milagres. Aqui está mais uma característica da igreja da multidão: caçar milagres independe de quem der. Por isso, essa igreja acredita em qualquer meio e esquema para receber a qualquer custo o milagre. Essa igreja descarta a vontade ética de Deus para supervalorizar exclusivamente o poder de Deus. Ou seja, essa igreja ora: "seja sempre feita a minha vontade assim na terra como no céu".

4. A igreja da multidão quer a salvação sem o salvador. No calvário, “Um dos malfeitores crucificados blasfemava contra ele, dizendo: ‘Não és tu o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós também’”.(Lucas 23:39). Este criminoso deseja ser salvo da punição e da dor da cruz. E com isso, provoca Jesus com uma suspeita cínica e maligna quando manda Jesus demonstrar seu poder saindo da cruz e libertando os criminosos. Mas esse criminoso não entendia a necessidade da morte de Jesus; por isso que fez esse pedido absurdo. Se Jesus atendesse esse pedido, haveria milagre da anestesia efêmera da dor, mas não haveria o milagre eterno da salvação para a humanidade. Aqui podemos ver que esse criminoso representa o tipo de petições que a igreja da multidão faz a Jesus. A multidão de nossas igrejas quer ver milagre, mas fecha os olhos para o significado, propósito e efeitos da cruz. Perceba que, por amor, Jesus não faz o milagre pedido por esse criminoso: sair da cruz. Porque o poder de Jesus está no amor que, “...embora sendo Deus, considerou o ser igual a Deus, era algo que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo vindo a ser semelhante aos homens. E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até a morte e morte de cruz...” (Fp 2:6-8). Já imaginou se Jesus tentasse provar seu poder saindo da cruz no calvário? Estaríamos diante de um deus poderosamente em extrema fraqueza de caráter. Ainda bem que ele não respondeu a oração daquele criminoso. Porém, o segundo malfeitor deseja o salvador e sua salvação quando pede: “Jesus, lembra-te de mim quando entrares no teu Reino. Jesus lhe respondeu: “Eu lhe garanto: Hoje você estará comigo no paraíso”. (Lucas23:43). Para esse criminoso Jesus na ficaria morto para sempre, mas entraria no seu Reino Eterno, uma vez que é Rei. E Jesus faz um milagre: Garantir vida eterna ao criminoso. Aqui vemos a revelação da graça de Deus em ação fazendo o milagre da salvação imerecida de um malfeitor. A igreja da multidão é uma criminosa porque blasfema contra Jesus ao querer milagres sem a cruz. Milagres sem cruz é magia, bruxaria, macumba. Milagre de Jesus sempre é pela cruz. E a cruz implica no Senhorio de Jesus. “Por isso Deus o exaltou à mais alta posição e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai”.(Fp 2:9-11).

5. A igreja da multidão recebe o milagre de Jesus e logo se esquece do Jesus dos milagres. Certa vez Jesus curou dez leprosos. Mas Jesus se admira pelo fato de que apenas um volta para agradecer quando pergunta: “...‘Não eram dez os que foram curados? Onde estão os nove? Não houve, porventura, quem votasse para dar glória a Deus, senão este estrangeiro?’” (Lucas 17:17, 18). A maioria dos que recebem o milagre da cura se esquece de quem os curou. Assim também, a igreja da multidão sofre de aminésia espiritual. Quando a multidão recebe o milagre, logo se esquece de agradecer a Deus. Por isso, que a mesma multidão que entra na igreja é a mesma que sai. A igreja da multidão está sempre lotada de gente que recebe milagres pela graça de Deus, porém é uma igreja vazia de adoradores gratos e perseverantes na fé. O propósito de Jesus curar os leprosos é chamá-los a salvação e a adoração. Mas a igreja da multidão está cega para este propósito de Deus.

Você é membro da Igreja da Multidão? Você frequenta uma multidão de igrejas?

Pense nisso!

Em Cristo, o Senhor da Igreja

Jairo Filho

A Igreja dos Discípulos


Em contrapartida a IGREJA DA MULTIDÃO há a IGREJA DOS DISCÍPULOS DE JESUS. Vejamos suas características:

1. A Igreja dos discípulos conhece a verdadeira identidade de Jesus revelada pelo Pai. A segunda pergunta que Jesus faz aos seus discípulos sobre sua identidade é: “Mas vós, continuou ele, quem dizeis quem eu sou? Respondendo Simão Pedro, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo". (Mt 16:15, 16). A resposta nos diz que Pedro entendia que Jesus era o messias libertador esperado e o próprio Deus encarnado e presente entre nós para salvar a humanidade. A revelação que Pedro recebe do Pai acerca da verdadeira identidade de Jesus demonstra que Pedro conhecia bem Jesus. “Então, Jesus lhe afirmou: ‘Bem-aventurado és, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue que to revelaram, mas meu Pai, que está nos céus. Também eu te digo que teu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela’. (Mt 16:17). Jesus aprova a resposta de Pedro; e é firmado nesta revelação que a igreja dos discípulos de Jesus é edificada. Assim, essa Igreja é a igreja dos discípulos que conhece quem é Jesus. E o sabe porque o próprio Pai o revelou. A Igreja dos Discípulos é a Igreja que o Pai deu para o Filho (Jo 6.44).

2. A igreja dos discípulos reconhece nos milagres de Jesus a revelação da santidade de Deus. Quando Jesus fez o milagre da grande pescaria, “...Simão Pedro prostrou-se aos pés de Jesus, dizendo: Senhor, retira-te de mim, porque sou pecador”. (Lucas 5:8). Pedro responde ao milagre de Jesus enxergando no milagre da pescaria a revelação da santidade de Deus. Podemos aprender aqui que a Igreja dos Discípulos sabe que a única maneira de relacionar-se corretamente com Jesus é através da adoração. Nós seguimos às metas de um líder, obedecemos às ordens de um chefe, escutamos as pregações de um profeta, aprendemos filosofias de vida de um mestre, mas a Deus a gente adora. E nesta ocasião, Pedro Adorou a Jesus, porque viu a santidade de Deus em Jesus. E a santidade de Jesus o levou a enxergar a miséria de sua própria natureza pecaminosa. Ariovaldo Ramos nos ensina que: “Adorar a Deus é pedir perdão. Tudo o que dizemos a Deus é insuficiente para honrá-lo. Mas quando lhe pedimos perdão, o adoramos, porque admitimos que Ele está certo, não nós. E lhe pedimos perdão, não apenas por nossos desvios morais, mas por nosso jeito de ser e de viver”. Assim, entendo que o perdão recebido nos transforma mais parecidos com Jesus, pois o Espírito Santo vai nos revelando onde estamos desonrando a Deus e nos transformando à imagem do Senhor (2 Co 3.18). E dessa forma a igreja dos discípulos adora a Deus imitando o caráter de Jesus por meio da obra do Espírito Santo.

3. A igreja dos discípulos reconhece no milagre de Jesus o chamado para fazer mais discípulos. Após Pedro adorar a Jesus pela sua santidade, “Disse Jesus a Simão: ‘Não temas; doravante serás pescador de homens’. E, arrastando eles os barcos sobre a praia, deixando tudo, o seguiram". (Lc 5:10 e 11). Ou seja, Jesus está dizendo que o milagre que acabara de realizar aponta para outro milagre que estava por vir: O chamado a pescar homens. Da mesma forma que Jesus fez o milagre da grande pescaria de peixes, faria agora o milagre da pescaria de homens do mar das trevas para a superfície da rocha do Reino da maravilhosa luz do amado filho de Deus. E como resposta a este sinal da santidade e chamado de Deus, Pedro e seus companheiros deixam tudo o que tem para seguir a Jesus. Perceba que o barco estava cheio de peixe e da garantia de lucro financeiro. Mas Pedro, Tiago e João deixam tudo o que ganharam para seguir em tempo integral a Jesus. Ou seja, a adoração nos leva à fazer missões. Assim, entendo que ser discípulo de Jesus é morrer para seu próprio egoísmo a fim de viver para servir a Deus com altruísmo. É trocar a falsa fé que tenta mover a mão de Deus para satisfazer seus desejos gulosos e insaciáveis pela fé que move a mão do discípulo para doar a si mesmo e o que tem ao próximo levando-o aos cuidados das mãos de Deus. Resumindo: Quando a igreja dos discípulos recebe o milagre da fartura financeira pela providência da graça de Deus, somos chamados a compartilhar tudo o que temos com quem não tem. Como? Fazendo mais discípulos.

4. A igreja dos discípulos reconhece no milagre o alimento de Jesus e sua palavra de vida eterna. Após a multiplicação dos pães e peixes, Jesus revela as mais íntimas motivações e intenções do coração da multidão que o seguia: Satisfazer-se de comida material. Mas Jesus adverte dizendo: “Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que subsiste para a vida eterna, a qual o Filho do Homem vos dará...A obra de Deus é esta: que creiais naquele que por ele foi enviado...Eu sou o pão da vida; o que vem a mim jamais terá fome; e o que crê em mim jamais terá sede...” (Jo 6:27, 29, 35). Jesus ensina que o verdadeiro alimento que mata a fome da alma humana era ele mesmo e não a comida material que perece. E o verdadeiro significado e propósito da obra de Deus é que creiam em Jesus: o verdadeiro milagre.“Ao ouvirem isso, muitos dos seus discípulos disseram: “Dura é essa Palavra. Quem pode suportá-la?...Daquela hora em diante, muitos dos seus discípulos voltaram atrás e deixaram de segui-lo”.(Jo 6:60 e 66). Ou seja, a igreja da multidão muitas vezes está no meio dos discípulos; e é revelada quando escuta a Palavra de vida eterna, pois não resistem e não suportam a Palavra da verdade, e logo apostatam da fé em Jesus. Logo em seguida a apostasia da multidão travestida de discípulos, Jesus coloca seus doze discípulos contra a parede quando perguntou: “Porventura, quereis também vós outros retirar-vos? Respondeu-lhe Simão Pedro: Senhor, para onde iremos? Tu tens as palavras de vida eterna; e nós temos crido e conhecido que tu és o Santo de Deus”. (Jo 6:27 – 71). Jesus esta revelando que o que vai alimentar e saciar a fome do ser humano é ele mesmo – o pão da vida – e suas palavras de vida eterna. Assim, nem só de pão de fermento viverá o homem, mas de todo o pão da vida que é Jesus. Ou seja, a igreja dos discípulos se alimenta do milagre do pão da vida e da esperança da vida eterna em Cristo Jesus. E vive pregando esse milagre.

5. A igreja dos discípulos só vive dos milagres gerados em torno da cruz de Cristo. Jesus faz referência à cruz quando compara a si mesmo como alimento para gerar vida eterna. Ele diz: “...Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tendes vida em vós mesmos. Quem comer a minha carne e beber o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Pois a minha carne é a verdadeira comida, e o meu sangue é a verdadeira bebida...quem comer este pão viverá eternamente.” (Jo 6:52 – 58). A igreja dos discípulos vive em torno da verdade da cruz. E a cruz nos leva a morrer para os nossos pecados para ressuscitar como nova criatura em Cristo Jesus. A igreja dos discípulos prioriza se alimentar da vida de Jesus e produzir na própria vida, a vida de Jesus. E para ter a vida de Jesus, a igreja dos discípulos tem que passar pela cruz. E é na cruz que está garantida a continua generosidade de Deus à sua igreja. Pois, Deus "que não poupou seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como não nos dará juntamente com ele, e de graça, todas as coisas?” (Rm 8:32). Se Deus fez o maior milagre de entregar seu próprio filho em nosso favor para nossa salvação eterna, quanto mais, pela cruz, nos dará graciosamente – incondicionalmente do mérito ou demérito de quem quer que seja – todos os milagres pela sua soberana vontade. Assim, a igreja dos discípulos vive dos milagres aqui e agora pelos efeitos da graça da cruz de Cristo. Pois a graça da cruz de Cristo nos garante os milagres em nossa vida.

Enfim, podemos concluir que os milagres de Jesus são a revelação do caráter e propósito de Deus em salvar o mundo e reproduzir verdadeiros discípulos que vivem imitando a Jesus durante toda a vida. Esta é a verdadeira igreja dos milagres.

Dessa forma, que igreja você está? A igreja da multidão ou a Igreja dos discípulos?

Pense e responda a si mesmo.

Em Cristo, em quem a igreja dos discípulos está edificada para realizar e viver milagres nele.

Jairo Filho

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O contexto do milagre

Estamos diante de um drama: Jesus tinha passado o dia inteiro fazendo seu ministério acontecer no meio do povo. O “dia começava a declinar” (Lc 9:12) e Jesus decide se retirar “para um lugar deserto, à parte” (Mt 14:13), indo a “sós no barco para um lugar solitário” (Mc 6:32), atravessando “o mar da Galiléia, que é o Tiberíades” (Jo 6:1). E “retirou-se à parte para uma cidade chamada Betsaida” (Lc 9:10b), porque tanto Jesus como seus discípulos “não tinham tempo nem para comer, visto serem numerosos os que iam e vinham” (Mc 6:31). “Então, subiu Jesus ao monte e assentou-se ali com os seus discípulos” (Jo 6:3).

Quando a multidão percebeu que Jesus não estava mais a vista deles, “seguindo-o por terra” (Mt 14:13, Lc 9:11b), “correram para lá, a pé, de todas as cidades, e chegaram antes deles” (Mc 6:33b), “porque tinham visto os sinais que ele fazia na cura dos enfermos” (Jo 6:2b). Aqui já vale registrar a motivação do povo para seguir Jesus: a cura dos enfermos. Ou seja, a cura das enfermidades era a motivação e a intenção da multidão seguir Jesus. Se Jesus não curasse, será que a multidão seguiria Jesus?

É nesse contexto da necessidade de retiro espiritual de Jesus e a multidão interrompendo seu descanso, silêncio e solitude que o milagre da provisão pede para acontecer. Este é o contexto: Jesus está cansado e a multidão está interessada nele por causa das curas realizadas. Como Jesus reagiu a esse cenário? Como Jesus aproveitou essa oportunidade? 

Antes de tudo, temos que prestar atenção no seguinte fato: Em todo o ministério de Jesus, os discípulos estavam engajados na sua agenda ministerial; caminhando nos passos evangelisticamente intinerantes de Jesus; convivendo com os encontros e desencontros de Jesus com as pessoas; testemunhando ocularmente os sentimentos e temperamentos de Jesus; participando dos milagres de serviço que Jesus realizava para os necessitados; acompanhando as ações e reações amorosas de justiça, vida e paz promovidas por Jesus; experimentando a espiritualidade de Jesus no seu relacionamento com Deus, consigo mesmo e com seus discípulos, sua família, multidão, religiosos, enfermos e pecadores marginalizados; e aprendendo a ser semelhantes a Jesus no caminho da vida.

Nessa convivência íntima de Jesus com seus discípulos podemos lembrar da lição de humildade e serviço (Jo 13). Algumas horas antes de ir ao Getsêmani, experimentar o prelúdio das agonias da crucificação, Jesus lava os pés dos seus discípulos, como sendo uma encenação teatral pedagógica para ensinar acerca do serviço humilde ao próximo. Após o fim da lição encenada, Jesus conclui deixando a seguinte missão: “Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também”. (Jo 13.15). Esta encenação do lava pés é uma sombra do que haveria de vir logo após – a crucificação. Aqui está o modelo de serviço: Jesus. Isso implica dizer que todo o discípulo de Jesus deve imitá-lo em seu serviço ao próximo. Esta é a vontade e o plano de Deus revelada em Jesus para a vida de todos os seus discípulos.

Diante dessa declaração temos que fazer três destaques: (1) Jesus serviu para ser nosso exemplo. Esta é a sua misão de vida: Servir e não ser servido (Mt 10:45 e Mc 20:28). (2) O modelo do serviço é Jesus. Isso implica dizer que o método, o propósito, as motivações, as intenções, os valores, os conceitos, os critérios e a escolha do público-alvo envolvidos no serviço de Jesus devem ser imitados. (3) Somos chamados para servir à moda de Jesus. A partir do que foi dito, surge uma conclusão que implica em missão. Se Jesus é o nosso exemplo de serviço, somos chamados para sermos servos porque Jesus foi servo; e servirmos do jeito de Jesus. Jesus conclui a mensagem do lava-pés com uma promessa de felicidade para aqueles que vivem para servir dizendo: “Ora, se sabeis estas coisas, bem aventurados sois se as praticardes.” (Jo 13:17). Assim, vivemos para servir e servimos para gerar vida. Como sempre é dito por muitos, quem não vive para servir, não serve para viver. Pois, segundo Jesus, aquele que serve se torna mais parecido com Jesus. E quem se torna mais parecido com Jesus recebe a regeneração continua por toda vida. Ou seja, nossa humanidade é restaurada quando servirmos à moda de Jesus. Nos tornamos mais humanos à medida que servirmos. Por isso servirmos para tornar tornar o mundo mais humano. Isto é felicidade: servir para ser semelhante a Jesus. Servir para regenerar a humanidade idealizada por Deus em nós e no mundo.

Esses princípios entendidos e aplicados no contexto do milagre da multiplicação de pães e peixes nos ajuda a olhar para esse milagre interpretando-o como serviço de Jesus que deve ser imitado. Ou seja, o milagre de Jesus revela o caráter de Deus em sua relação conosco. E também revela o jeito que Jesus fez o milagre de modo que seja copiado pelos seus discípulos. Jesus é o milagre do povo para que todo discípulo, semelhante a Jesus, seja o milagre do povo para o povo.

Em Cristo, o milagre da provisão a ser imitado para sermos a provisão do milagre de acabar com a fome da alma do mundo

Jairo Filho

O significado dos milagres de Jesus


Para se entender o significado dos milagres de Jesus é preciso entender sua chave interpretativa. O evangelho de João nos oferece a chave interpretativa dos milagres, movimentos e ensinamentos de Jesus. E para entendermos o significado dos milagres de Jesus temos que fazer duas perguntas para o evangelista João:

(1) Quantos milagres foram feitos por Jesus? “Há, porém, ainda muitas outras cousas que Jesus fez. Se todas elas fossem relatadas uma por uma, creio que nem no mundo inteiro caberiam os livros que seriam escritos.” (Jo 21:25). Ou seja, o evangelista João nos diz, por meio de uma hipérbole - que é uma figura de linguagem que aponta para um exagero intencional com a finalidade de tornar mais expressiva sua idéia – quando nos diz que os feitos de Jesus são imensuráveis a ponto de que se fossem registrados em livro, mesmo numa biblioteca do tamanho do mundo, não caberiam no universo. Isso quer dizer, em outras palavras, que os feitos de Jesus são incontáveis. Sendo assim, podemos concluir que muitos outros milagres de Jesus não foram registrados, uma vez que o evangelista João afirma que “Na verdade, fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro.” (Jo 20:30).  Apenas alguns milagres foram selecionados para serem registrados nos evangelhos. Mas diante disso, surge outra pergunta: Por que este e não aquele milagre foi registrado? Isso significa que os milagres foram escolhidos a dedo. Somente os milagres selecionados pelo evangelista inspirado pelo Espírito Santo foram registrados. E se foram registrado, eles têm um propósito de estarem na seleção dos milagres. Então, surge a segunda pergunta:

(2) Qual o propósito do milagre? Da mesma forma, o evangelista João responde: “Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome.” (Jo 20:31). Está respondido: Os milagres foram feitos por Jesus e registrados pelos evangelistas para gerar fé em Jesus como o Cristo, o Filho de Deus, e todo o que crer nele, tenha a vida eterna. Ou seja, os milagres têm o propósito de gerar discípulos de Jesus. Isso acaba com qualquer conceito de que os milagres são apenas uma demonstração de poder de Deus, do poder de quem pede ou do poder de quem os recebe; ou de que os milagres são realizados apenas para satisfazer a curiosidade do pedinte; ou os milagres são feitos apenas para satisfazer temporariamente os gulosos e insaciáveis desejos consumistas do fiel; ou ainda, cai por terra o discurso religioso de que os milagres tem que acontecer por que é a obrigação de Deus em cumprir seu papel na barganha feita pelo crente fiel.

No evangelho de João, o milagre da multiplicação de pães e peixes é considerado o quarto sinal que aponta para a identidade messiânica de Jesus. E é interessante notar que este milagre é o único que aparece em todos os quatro evangelhos (MT 14:13-21; Mc 6:32-44; Lc 9:10b-17). E também é interessante notar que todo milagre de Jesus é chamado de sinal por João, como interpretação de que o milagre aponta para a identidade e obra de Jesus. Sendo assim, podemos perceber que esse milagre é especial, uma vez que foi registrado pelos quatro evangelistas. E se foram registrados é porque esse milagre tem muito que revelar sobre a identidade de Jesus e produzir fé salvadora e discipulado.

Agora volte mais uma vez os olhos para o texto sagrado e perceba que o objetivo dos milagres é gerar um relacionamento de fé salvífica e discipulado no relacionamento contínuo entre Deus e quem recebe o milagre. E além do mais, mesmo que nós não recebamos os milagres hoje, mesmo assim, os milagres de Jesus já foram feitos e registrados de uma vez para sempre para que todos creiam em Jesus para a salvação e discipulado. Isso implica dizer que se Deus não fizer agora o milagre que tanto desejamos, não temos o direito de ameaçar Deus de abandoná-lo com nossa incredulidade; uma vez que, nossa fé está na Palavra de Deus de que ele já fez milagres para evidenciar sua identidade messiânica de salvador do mundo. E Deus não necessita mais provar, periodicamente a cada geração e a cada indivíduo, por meio de milagres, a sua identidade de que ele é o Senhor e Salvador de todos. Até porque temos muitos exemplos na Bíblia, na nossa vida pessoal e íntima de fé, e na experiência religiosa nos templos negociadores de milagres que ninguém, necessariamente, se torna salvo e continua firme na fé como discípulos de Jesus baseado, exclusivamente, nos milagres recebidos.

Vejamos alguns exemplos: Na Bíblia, para satisfazer nosso interesse e objetivo, só basta citar dois exemplos. O primeiro se encontra na época dos juízes. O ciclo dos juízes é composto por uma reincidência contínua de apostasia, idolatria, opressão, ruína, arrependimento, clamor, livramento, restauração e trégua. E logo após a trégua, começa a apostasia novamente, completando um ciclo vicioso continuo e ininterrupto de pecados. Ou seja, após o milagre recebido, o povo se volta para a amnésia espiritual cheia de murmuração e ingratidão pelo milagre recebido, quando se deleita impiamente no pecado da apostasia cheia de incredulidade. Outro exemplo bíblico está no encontro de Jesus com os dez leprosos (Lc 17:11-19). Como sabemos, os 10 leprosos foram curados de sua enfermidade física, mas apenas um voltou para agradecer com fé em reconhecimento à identidade de Jesus. E este foi salvo, curado também de sua enfermidade espiritual de pecado. Ou seja, a maioria dos que recebem os milagres de Deus, imediatamente se esquecem de agradecer e ter um vínculo afetivo de amor e submissão com fé para a salvação e discipulado. A maioria só busca Deus para receber os milagres de suas necessidades efêmeras, materiais e físicas; e não querem as bençãos eternas da salvação e da cura espiritual do pecado pelo perdão Deus.

Semelhantemente, temos o exemplo pessoal de fé. Sabemos que nós já recebemos muitos milagres extraordinários de Deus, mas muitas vezes esses milagres são logo esquecidos e Deus é colocado para escanteio em nossa vida. Estamos cansados de perceber muitas pessoas alcançadas pelos milagres da graça de Deus ficarem alegres no primeiro momento e responderem com a promessa de consagração e gratidão servindo ao Senhor. Mas, com o passar do tempo, aquele que recebeu o milagre esquece da promessa feita e volta a pecar continuamente e a cruzar os braços diante do serviço na obra do Senhor.

Da mesma forma, os templos cristãos estão lotados de pessoas buscando, exclusivamente, os milagres; e quando os recebem, abandonam a Deus. As portas dos fundos dos templos estão sendo mais largas do que as portas de entrada. A maioria que entra é a mesma que sai imediatamente após o milagre ser recebido. Isso acontece, muitas vezes, porque os milagres são vendidos nesses templos. E venda é negócio, e negócio exclui qualquer laço afetivo da graça de Deus. Com isso, há o trânsito variável e mutante de fiéis que entram e saem despidos de um discipulado radical de serviço em amor a Deus.

Notando esses exemplos bíblicos, pessoais e religiosos, podemos confirmar a tese de que os milagres feitos por Jesus são sinais que evidenciam a revelação da identidade messiânica de Jesus como Senhor e Salvador. Estes sinais foram registrados para produzir fé salvadora e discipulado em quem recebe ou testemunha os milagres.    

Em Cristo, o milagre que o mundo tanto carece 
Jairo Filho

O milagre da provisão e a provisão do milagre

INTRODUÇÃO
 
Vivemos num contexto de fome, miséria, desemprego, doenças, analfabetismo, injustiça social, má distribuição de renda, sofrimento, pobreza, prostituição, pedofilia, sincretismo religioso, corrupção política, capitalismo selvagem, roubo, violência, consumismo, drogas, divórcio, morte e etc. A sociedade é um cenário de pecado e pecadores; é um cemitério de defuntos espirituais dominados pelas façanhas do Diabo; é um reino de trevas e maldades.

Também vivemos trancados em nosso mundinho egoísta de prazeres, compromissos, trabalhos e agendas superlotadas de ativismo que não permitem espaço para uma convivência íntima sem pressa com Deus, consigo mesmo e com o próximo. Estamos condicionados ao vício de olhar exclusivamente para o horizonte do nosso umbigo, enquanto cada um vive por si e para si só. O deus desse século está dentro de cada um de nós. O templo religioso da nossa geração são os corpos plastificados que cultivam a ego-latria do individualismo.

A propagação da cultura filosófica do hedonismo que dissemina um sentido de vida exclusivo na busca insaciável pelo prazer egoísta; o ativismo profissional como mola propulsora para o ganho e acúmulo de riquezas a todo custo, excluindo a dignidade da vida humana em troca de capital; e a busca frenética pelo abandono do anonimato no lugar da fama, poder, status, sucesso e glória vêm preenchendo a agenda existencial das prioridades e sonhos da nossa sociedade. Ou seja: hedonismo egoísta, consumismo capitalista e poder político estão se destacando cada vez mais como a tríade da satisfação dos gulosos desejos humanos.

Além disso, quando surge à contra cultura de serviço ao próximo em suas necessidades, sempre encontramos muitos desafios e adversidades no caminho. O maior deles está dentro de nós mesmo. É a competição, intriga, partidarismo, inimizade, murmuração, pessimismo, ingratidão e guerra construídas entre as pessoas do mesmo time. Esses adversários são fabricados dentro de nós mesmos e paridos como inimigos íntimos que destroem toda ação social beneficiente e comunitária. Infelizmente, o espírito solidário e altruísta desaparece com o espírito competitivo disseminado na cultura da formação de equipes. E assim, todo trabalho solidário perde a guerra contra o mundo para si mesmo.

Diante desses contextos citados de mazelas sociais, do egoísmo pessoal e do espírito competitivo, ainda existe uma multidão de pessoas carentes e desesperadas pelo milagre da salvação. Há ainda inúmeras pessoas perdidas sem rumo moral; enterradas na depressão existencial; estressadas pela ansiedade do ativismo profissional; pressionadas pelo consumismo capitalista; violentadas pelas relações humanas maléficas; extasiadas com o hedonismo indiferente e apático à dor humana; entorpecidas pela vida de drogas e pela droga de vida; famintas por pão de fermento e pão da vida; presas na rotina do tédio monótono e enfadonho; enfermas, agonizando de dor na idosa fila do apático socorro humano; frustradas consigo mesmas e decepcionadas com o próximo; traumatizadas pelas tragédias da vida; vazias de sentido de vida e corações vazios de amor. Sendo assim, somente um milagre para transformar o mundo.

Com isso, como podemos socorrer as mazelas da multidão e acabar com a multidão de mazelas no mundo? Como fazer um milagre para a multidão em seus problemas e acabar com os problemas da multidão? Como oferecer o milagre da transformação de vidas? É pensando nesse contexto de mazelas sociais, pessoais e relacionais que convido você a encontrar boas pistas de como oferecer o milagre de salvação para essa multidão carente e faminta por vida.

A partir do milagre da multiplicação de sanduíche de peixe (MT 14:13-21; Mc 6:32-44; Lc 9:10b-17), levanto a seguinte tese:

DEUS SUPRE TODAS AS NECESSIDADES HUMANAS COM O MILAGRE DA PROVISÃO,
FAZENDO PARCERIAS COM QUEM ESTÁ DISPONÍVEL PARA FAZER A OBRA DELE ACONTECER.

Ou seja, o milagre da provisão é nos transformar na provisão do milagre. Somente assim, pode acontecer o milagre da transformação da multidão de vidas.

Em Cristo, o milagre da provisão de ser a provisão do milagre


Jairo Filho
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