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sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A sabedoria de viver a vida sem tédio - Parte 1


O que é tédio? Tédio é o sentimento de interpretar a vida como uma sucessão enfadonha dos mesmos fatos de sempre. É aquele sentimento de quem já experimentou muito da vida e não tem mais nada que experimentar. O tédio reclama: “já vi”, “já fiz”, “já experimentei”, “já sei”. Tédio é um Déjà vu deprimente. O tédio é a mesma repetição de sempre que leva o fastio da mente e das sensações, experimentando o mesmo de sempre para chegar sempre no mesmo lugar previsível e repetitivo de sempre. 

Como vive uma pessoa que interpreta a vida como uma rotina de fatos sem nenhuma novidade, cuja única expectativa é ver hoje o que já viu ontem? Como vive uma pessoa que está com tédio? A banda de rock brasileiro Biquini Cavadão cantou uma música chamada TÉDIO¹ que responde essas perguntas assim:


O tédio nos leva a olhar para o relógio e interpretar a agenda de nossas vidas como uma sucessão de fatos sem sentido nem propósito. O tédio produz uma monotonia depressiva que nos veste de pijama o dia inteiro e nos aprisiona em casa. O tédio é uma doença que muitos ainda não encontraram remédio. O tédio nos enterra no quarto escuro da depressão. Tédio é olhar para a vida e não ver nem ouvir nenhuma nova notícia. Tédio é o drama de muita gente que vive uma rotina monótona de repetir tudo outra vez todos os dias. O tédio pode nos levar ao suicídio. Talvez seja uma ironia divina, mas quando eu estava no meu trajeto de meditar e escrever sobre o tédio fui chamado urgentemente para orar por uma mulher ferida no hospital após ter tentado se suicidar por sentir o tédio de viver. Realmente, o tédio pode nos matar. Tédio é um lento suicídio existencial. 

Nossa geração vive “A ditadura do novo” que fabrica um tédio doentio em nossa atual geração como fonte para a produção da fome existencial que exige novidades sempre. E é exatamente sobre isso que o livro do Eclesiastes começa falando. Ele começa a descrever a vida como uma sucessão contínua de processos repetitivos.

1. Tédio da vida: “Geração vai geração vem...” (Ec 1:4). Podemos perceber que a vida é uma eterna sucessão de nascer, crescer, amadurecer, reproduzir, envelhecer e morrer. Todas as gerações seguem o mesmo ciclo. E o mesmo destino nos aguarda. Todos os dias pessoas nascem e morrem para virarem estatísticas do IBGE. Imagine um médico obstetra registrando quantos partos ele fez durante sua carreira. Imagine um funcionário de cartório fazendo mais um registro de nascimento ou de óbito. Imagine um coveiro trabalhando em mais um enterro. Para eles, geração vai e geração vem. E a vida continua. É a vida como ela é.

2. Tédio do dia a dia: “Levanta-se o sol, e põe-se o sol, e volta ao seu lugar, onde nasce de novo” (Ec 1:5). O sol nasce e volta ao seu lugar. Tudo outra vez para sempre. Todo dia tudo é sempre igual: manhã, tarde e noite. A cronologia das 24 horas do dia é a mesma desde o início da contagem do tempo. Os meses do ano são imutáveis. Todas as estações do ano são as mesmas e previsíveis na mesma ordem: Primavera, verão outono, inverno. O tempo é sempre o mesmo. Não há tempo novo na rotina do trajeto do sol. Isso é semelhante a um atleta correndo numa pista circular ou um hamster preso em sua gaiola correndo infinitamente numa roda. A rotina da agenda diária é igualmente cíclica para todos nós. Tanto o relógio biológico quanto o relógio social ditam o mesmo ritmo para todos. Acordar, trabalhar e dormir foram sempre o circuito fechado e fixo da rotina de tédio. Quem escapará da prisão do tédio do dia a dia?

3. Tédio da natureza: “O vento vai para o sul e faz o seu giro para o norte; volve-se, e revolve-se, na sua carreira, e retorna aos seus circuitos. Todos os rios correm para o mar, e o mar não se enche; ao lugar para onde correm os rios, para lá tornam eles a correr” (Ec 1:5-7). Aqui é descrito o vento soprando em seus circuitos sem propósito. E as águas despejando-se nos mares, sem jamais encontrar um fim para suas tarefas. Enfim, quem contempla o vento e os rios perceberá que percorrem a mesma rotina em sua trajetória. O vento nunca se cansa de se movimentar nem os rios se fartam de correr nem jamais conseguem encher o mar. O tédio também alcança os movimentos da natureza.

4. Tédio dos sentidos: “Todas as cousas são canseiras tais, que ninguém as pode exprimir; os olhos não se fartam de ver, nem enchem os ouvidos de ouvir” (Ec 1:8). O corpo está cansado de sentir as mesmas sensações. E olhos de ver as mesmas cenas todos os dias. E os ouvidos de escutarem todos os barulhos, ruídos e sons de sempre. O tédio nos conduz a enxergar sempre os mesmos cenários de rotina e a ouvir os mesmos sons de repetição. Quem nunca sentiu fastio da mente e sentidos do corpo e da alma?

5. Tédio na história: “O que foi é o que há de ser; e o que se fez, isso se tornará a fazer; nada há, pois, novo debaixo do sol. Há alguma cousa de que se possa dizer: Vê, isto é novo? Não! Já foi nos séculos que foram antes de nós”. (Ec 1:9-10). Os historiadores dizem que a história humana é cíclica e repetitiva a cada geração. Não há nada novo. Não há uma nova notícia que nunca ninguém ouviu antes. É assim mesmo: “Leio o jornal que é de ontem, pois pra mim, tanto faz”. As notícias dos jornais são as mesmas, só mudam de endereço. Enfim, o tédio surge quando lemos a história de nossas vidas sendo xerox da história da vida. Isso tudo nos conduz a pensar sobre o tédio que há nas relações humanas. Apesar da diversidade da identidade humana, as pessoas podem copiar e repetir atitudes, comportamentos e maneirismos. Há pessoas que falam os mesmos assuntos, tem os mesmo problemas, contam as mesmas histórias, riem sempre das mesmas piadas, suas conversas não passam de uma ladainha insuportável, repetitiva e copiada.

Você está experimentando um tédio existencial nesse atual momento de sua vida? 

Como ter a sabedoria de viver a vida vencendo o tédio?

Para não ficar entediante esse texto paro por aqui e continuamos na próximo : )

Até a próxima!

Em Cristo, em quem nunca há tédio

Jairo Filho 

Sugestão de Leitura: Kivitz, Ed René - O livro mais mal-humorado da Bíblia - Ed Mundo Cristão, 2009, 222 págs.


[1] Composição: Álvaro Prieto Lopes, Bruno Castro Gouveia, Miguel Flores da Cunha e Sheik.

A sabedoria de viver a vida sem tédio - Parte 2




Apesar do tédio, há esperança no Eclesiastes quando nos diz: “Já não há lembrança das cousas que precederam; e das cousas posteriores também não haverá memória entre os que hão de vir depois delas” (Ec 1:11). Esta constatação do Eclesiastes pode parecer pessimista e nos enterrar de vez no tédio. Mas, na verdade, é uma brecha de esperança. Por mais que cada geração não tenha memória e tudo o que é feito hoje é jogado no lixo da amnésia, há a brecha de esperança contra o tédio com a verdade de que cada geração começa sua existência do zero. Ou seja, nem tudo é tão mais do mesmo assim como interpretamos nas gerações. Cada geração que nasce experimenta tudo novo e de novo. Por mais que para a geração anterior tudo não passe do mais do mesmo todo dia, para a atual nova geração tudo é uma descoberta cheia de novidades, surpresas e encantamento. 

Até mesmo as heranças recebidas podem ser interpretadas, usadas e transferidas diferentemente da geração anterior. Cada geração vai decidir o que fazer com a herança cultural herdada. Cada geração é responsável por inventar seu próprio mundo, seu tempo e sua vida. O que os pais entregam aos filhos é a carga genética, mas as experiências existenciais dos filhos são únicas, mesmo que os pais se vejam neles como cópia ou repetição do ciclo familiar herdado. Nascemos, crescemos, casamos, reproduzimos e morremos, mas cada geração faz isso à sua própria maneira. O que isso significa? Que a plenitude da experiência existencial de cada pessoa e de cada geração é para si mesma original, extraordinária e única. Com isso, podemos meditar em algumas interpretações e atitudes para cultivarmos a sabedoria de viver a vida sem tédio. Vejamos 3 sugestões para quem deseja vencer o tédio. 

1. Para vencer o tédio, viva a sabedoria de olhar para as SINGULARIDADES da vida. Se cada geração começa do zero sem memória, preste atenção nas descobertas peculiares de cada indivíduo, preste atenção nas experiências existenciais de cada pessoa, preste atenção nas interpretações da biografia de cada personagem da história da vida. Não olhe somente para a história cíclica de um povo, nem para as cópias da produção cultural das nações, nem para a repetição das experiências de um clã. Se você se concentrar exclusivamente nisso, você só enxergará estatísticas e números, xerox de biografias, circuitos de rotinas intermináveis e eterna mesmice. 

Olhe para a singularidade dos relacionamentos. É interessante que, mesmo Deus conhecendo tudo sobre todos os povos da terra e conhecendo todos os tempos, estações e histórias do mundo, mesmo assim, o Deus de Israel e de todos os povos, decidiu se revelar, se identificar e se relacionar como o Deus íntimo de pessoas chamando-as pelos seus nomes. Jesus diz que Deus é “Deus de Abraão, Isaque e Jacó” (Ex 3:6; Mc 12:26). Isso porque ele tinha uma experiência íntima de amor com cada um deles em especial. A implicação disso é que Deus não se relaciona conosco somente nos considerando uma estatística ou etnia, mas sim, pessoas e indivíduos diferentes. Se seguirmos essa entoada de sabedoria divina, vamos perceber que Jesus olhava para a singularidade da vida quando chamou e conheceu intimamente seus discípulos pelo nome, caráter e personalidade sem confundi-los nem generalizá-los. Jesus também prestou atenção nas singularidades da vida quando, mergulhado na multidão de toques e abraços, sentiu um toque especial de uma mulher enferma de hemorragia. Além disso, seguido por uma multidão, Jesus enxergou um pequeno homem pendurado numa árvore e o chamou pelo nome para jantar na casa dele. Enfim, Jesus venceu o tédio quando olhava para as singularidades da vida considerando indivíduos em seus relacionamentos interpessoais.  

Da mesma forma, devemos aplicar a sabedoria de Deus em nossos relacionamentos. Por exemplo: O líder religioso, o político, o professor, o pai, o psicólogo, o médico devem trocar a atenção para uma multidão sem rosto pelo olhar singular para cada indivíduo. Num auditório, cidade, sala de aula, casa, consultório, hospital há multidões, estatísticas, grupos, parentes, filas de pacientes; enfim, na vida há substantivos coletivos que generalizam as pessoas em conjuntos estereotipados com despersonalização e impessoalidades abstratas. Assim, para vencer o tédio, preste atenção na peregrinação existencial de cada crente, preste atenção nos problemas comuns a cada cidadão, preste atenção nos níveis de aprendizado de cada aluno, preste atenção nos afetos de cada filho, preste atenção na história de vida de cada paciente, preste atenção na dor de cada enfermo.  Por exemplo: Todos nós sabemos que todos os dias um monte de gente nasce, mas essa informação tem um impacto completamente diferente quando essa “gente” é seu filho. Todos os dias pessoas morrem, mas perder um pai ou amigo é coisa completamente diferente. Enfim, cada um de nós necessita de uma atenção especial, e essa atenção é a arma para vencer o tédio nos relacionamentos. O que nos faz iguais é que somos diferentes.

Olhe para a singularidade nos cenários da natureza. Se cada geração começa do zero, isso implica dizer que cada geração tem um jeito novo de receber, interpretar, usar e se relacionar com tudo o que há na vida. Além da singularidade dos relacionamentos, Deus nos ensina, em Jesus, a singularidade das relações com a natureza. O Deus criador do universo não enxerga somente a criação apenas como um todo, mas decide chamar as estrelas do céu pelo nome (Is 40:26). Imagine a quantidade de nomes de estrelas. Imagine a capacidade de Deus de nunca ser atingido pelo tédio na sua criação quando olha para cada elemento da criação como se fosse único e íntimo seu. Isso é espetacular. 

Isso implica dizer que uma coisa é falar sobre rios, outra coisa é falar daquele rio que você aprendeu a nadar, ou daquele rio Tiête que está poluindo a cidade inteira. Uma coisa é falar sobre o dia a dia, outra coisa é falar de dias especiais como 11 de setembro no World Trade Center ou o dia de meu aniversário, o dia 28 de outubro de 1982. Uma coisa é falar sobre o trajeto contínuo do vento, outra coisa é falar daquele vento gostoso no corpo quando você está morrendo de calor após uma saudável caminhada. Uma coisa é falar sobre o elemento fogo na natureza, outra coisa é falar sobre o dia quando aquele menino urbano e moderno se aventura nos escoteiros mirins imerso na floresta e descobre como fazer fogo sem usar os métodos convencionais como fósforo ou isqueiro. Uma coisa é falar sobre o fogo na humanidade, outra coisa é falar da tragédia no incêndio ou explosão que matou milhares de pessoas e algumas delas são nossos parentes amados. Enfim, precisamos prestar atenção na singularidade dos relacionamentos pessoais e na singularidade na natureza para vencer o tédio.      

2. Para viver sem tédio, viva a sabedoria de olhar para a DINÂMICA da vida. As gerações estão imersas no clico invariável de nascer, crescer, reproduzir e morrer; salvo se a morte aparecer como acidente e tragédia antes do previsto. Se olharmos para a vida somente para as gerações, fabricaremos o tédio de interpretar a vida como um vai e vem interminável de gerações na história humana. Mas, quando olhamos para as pessoas como indivíduos que são, perceberemos que a vida é dinâmica. Para vencer o tédio preste atenção na dinâmica da vida e dos relacionamentos. Exemplos: Você não está casado com a mesma pessoa de antes. Essa pessoa não é a mesma que era há 20 anos. Como é possível um pastor está na mesma igreja há 50 anos? É porque ele não foi o mesmo pastor desde quando chegou à igreja. Com o passar dos anos a maturidade muda teu jeito de interpretar a cidade que você mora, o relacionamento com as pessoas que você convive, a mesma Bíblia que você lê desde criança, a profissão que você exerce desde sua formação. Enfim, a vida é dinâmica e nunca nos deixa estacionar na inércia do tédio.

3. Para vencer o tédio, viva a sabedoria de olhar para a INSACIABILIDADE da vida. Preste atenção na capacidade humana de fazer o que sempre se fez como se fosse a primeira vez. Vejamos pelo menos 4 exemplos: 


Esta cena é do filme "A Estrada". Esse filme conta o drama pós-apocaliptico de um pai e filho sobrevivendo no mundo destruído. A cena mostra eles em busca de comida e o pai encontra, talvez, a última coca-cola do mundo. O pai já conhecia a coca-cola, mas o filho ainda não, pois nascera após a destruição do mundo. O interessante notar é que o filho experimenta a coca-cola pela primeira vez e o pai degusta como se fosse a primeira vez. Isso nos induz a perguntar: Quantas vezes bebeu água ou refrigerante na vida? Sugestão: Beba como se fosse a primeira e a ultima vez na vida. Assim, o tédio irá embora. Da mesma forma, você já teve a sensação, depois de degustar um farto churrasco, de que comeu tanto e naquele momento deseja nunca mais comer na vida, mas logo após da digestão você come com tanto gosto outra vez como se fosse a primeira vez? 

Outro exemplo é o banho. Nós tomamos banho todo dia, mas todo dia quando entramos debaixo do chuveiro parece que é cai sobre nós um dilúvio, nunca antes tomado, que encharca nossa alma com limpeza e renovação. 

Amizade também proporciona a insaciabilidade quando, em cada encontro com amigos, se torna especial a necessidade das conversas, experiências, abraços, afetos. Da mesma forma é o amor entre homem e mulher que tem a capacidade de se regenerar como se fosse a primeira vez. E por falar nisso, você se lembra do filme "Como se fosse a primeira vez" É a história de Henry Roth (Adam Sandler) que se apaixona por Lucy Whitmore (Drew Barrymore) que sofre de um tipo de amnésia que a faz ela esquecer, de um dia para o outro, as pessoas que ela se relaciona. Com isso, Henry é obrigado a conquistá-la todos os dias como se fosse a primeira vez.

Outro exemplo é a fé, o culto, a oração, a música de adoração, a leitura bíblica e pregação. Deus nos oferece a capacidade de reciclar diariamente a fome por estas práticas espirituais como se fossem vividas e experimentadas pela primeira vez. 

Mas, o que significa essa insaciabilidade? Significa que nós fomos feitos para viver um dia de cada vez, um momento de cada vez. É por isso que gosto das palavras do Lulu Santos, um Eclesiastes moderno: “Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia; tudo passa, tudo sempre passará. A vida vem em ondas como o mar, num indo e vindo infinito”. O que foi não voltará a ser, embora a vida tenha suas idas e vindas. 

Diante de tudo o que pensamos, podemos concluir que o sábio não é aquele que busca a novidade para se saciar. Sábio é aquele que consegue entrar na rotina da vida e fazer as coisas repetidas com a sensibilidade de perceber as singularidades e a dinâmica da vida, desenvolvendo a insaciabilidade de viver e fazer tudo na vida como se vivesse e fizesse tudo pela primeira vez.

Em  Cristo, minha novidade de vida que me faz viver cada dia como se fosse a primeira e ultima vez

Jairo Filho  

Sugestão de Leitura: Kivitz, Ed René - O livro mais mal-humorado da Bíblia - Ed Mundo Cristão, 2009, 222 págs

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Eclesiastes: A sabedoria de viver a vida como ela é


 O nome ECLESIASTES vem da palavra grega “eclésia” que significa igreja, assembléia, reunião. E o nome “eclesiástes” é o nome grego para o nome hebraico “qoheleth” que significa “o sábio que reúne  uma assembléia para falar-lhe; ou, simplesmente, o pregador, aquele que sabe e diz o que sabe”. O qoheleth é um homem sábio, colecionador de provérbios, professor e escritor. A tradição judaica garante que cântico dos cânticos foi escrito na juventude de Salomão, enquanto que o livro de provérbios foi escrito na sua maturidade; e, finalmente, em sua velhice, Salomão escreve o livro de eclesiastes. Para melhor entender o livro de Eclesiastes é necessário algumas considerações:

Realidade
O eclesiastes enxerga a vida como ela é sabendo sobre a vida real debaixo do sol. O propósito do eclesiastes é examinar a vida aqui e agora. Ele descreve e analisa o que vê. Salomão não destaca as realidades espirituais por trás de cada evento da vida; ele, simplesmente, fala dos fatos reais que acontecem debaixo do sol. Ao usar a expressão “debaixo do sol” (30 vezes), Salomão se refere ao mundo visível. O foco de seus pensamentos não são as entrelinhas, mas as linhas da realidade nua e crua como ela realmente é. O discurso do pregador descreve a vida despida de ilusão, maquiagem e escamoteamento cor de rosa. Interessante que o pregador Salomão rejeita todo e qualquer jargão decorado que tenta explicar a vida com chavões do tipo: “Deus fecha uma janela, mas abre uma porta; Deus escreve certo por linhas tortas; Deus tarda, mas não falha; Deus tem um plano para a sua vida”. Falamos isso com muita fé e entusiasmo quando as crises da vida não estão nos alcançando no momento. Porém, quando somos assaltados pela violência da dor da existência gritamos: “Por que isso foi acontecer comigo? O que eu fiz para merecer isso?” Então, nessa hora, aparece gente dizendo os mesmos chavões ditos anteriormente por nós. E logo percebemos que esses gelados provérbios religiosos não passam de "blablablá" superficiais e sem sentido, incapazes de nos consolar em nossas feridas existenciais.

Vaidade
É assim que o eclesiastes descreve a realidade da vida. Ele usa o superlativo “vaidade de vaidades”, “super vaidade”, “vaidadíssima”, "vaidade completa". Entre Ec 1:2 e 12:8 o pregador repetirá esta declaração-chave cerca de 30 vezes como quem quer comprovar que a vida é uma vaidade. 
 É necessário saber que a palavra vaidade usada pelo eclesiastes não tem nada haver com essa conotação popular de que vaidade é essa vida empavonada, cheia de ostentação, nabalesca, cheia de luxo e brilhosa. Não é esse conceito que geralmente temos de se vestir de um desejo imoderado e infundado de merecer a admiração dos outros; nem é a busca por vanglória e ostentação. Não! A palavra vaidade tem pelo menos três significados:
Vaidade significa passageiro, efêmero, brevidade e transitório. A vida é como uma bolha de sabão ou fogos de artifícios, perfeitos e belos por lampejo de uma fração de segundos; sua perfeição é fugaz, surge e logo se desfaz. É como um vapor, fôlego ou sopro – é transitório, sem substância, vazio. É como o hálito solto numa manhã fria que embaça o vidro do espelho do banheiro e após um segundo se apaga a não existe mais. É nada de nada; é névoa de nada. É uma névoa que se evapora e logo se extinguirá e não mais voltará.
Vaidade também significa fútil, sem sentido, absurdo ou sem significado.  A vida é vista em estado de fraqueza e desconfiança em que demonstra futilidade, vazio, oco, falta de senso, frívolo, sem valor, vão, sem produzir efeito, engano, ilusão, ridículo, bobagem, besteira, tolice. O Eclesiastes diz que nada é digno de confiança, nada é substancial; nenhum esforço de per si trará satisfação permanente; as maiores alegrias são transitórias. Vejamos Três exemplos: (1) Recentemente, um jogador de futsal de Guarapuava-PR morreu quando deu um carrinho numa dividida de bola e escorregou num piso rachado e um pedaço de madeira perfurou sua a perna e entrou na barriga do jogador. Ao chegar ao hospital ele morre por hemorragia generalizada.
 

(2) Algumas semanas atrás, na cidade de Ivaí-PR, aconteceu um evento de corrida de carro. Após uma demonstração de um carro, o disco de embreagem desse carro se soltou e foi lançado direto no estômago de um menino de 10 anos que morreu na hora, caindo no chão diante da platéia assustada e boquiaberta, com todos os intestinos expostos para fora do corpo. (3) Também soube da notícia de um homem que morreu de uma parada cardíaca enquanto dirigia seu carro em alta velocidade. Havia somente uma criança no carro, sentada no banco de trás, que testemunhou a morte desse homem, e tentou acordá-lo, abraçando o homem por trás. Com o carro em alta velocidade e descontrolado, um caminhão bateu de frente com o carro. O carro ficou todo destruído. E os corpos irreconhecíveis. O resgate achou o braço cortado da criança abraçado na cabeça decapitada do homem. Diante de tudo isso, Salomão diz: Vaidade de vaidades. Não faz o menor sentido.

Vaidade ainda pode significar algo incompreensível ou enigmático. Salomão descreve a vida e seus mistérios. Mas, ele deixa claro que não é que a vida não tenha sentido, mas é impossível identificá-lo plenamente. E é por isso que não tem sentido, se não é possível identificar. Qual o significado da morte prematura de uma criança? Qual o sentido de um terremoto ou tsunami destruir toda uma cidade? O que podemos aprender com o nascimento de uma criança deficiente mental e/ou física? Salomão diz: A vida é vaidade de vaidades. Tudo é vaidade, névoa de nada, bolha de sabão.

Experiência
O livro do Eclesiastes não tem nota de roda pé. O eclesiastes enxerga a vida como ela é sabendo que experimentou plenamente a vida como ela é. O sábio Salomão, quando escreveu o eclesiastes, não está sentado numa biblioteca fria, embriagado com suas elucubrações teológicas e filosóficas, pesquisando bibliografias e escrevendo notas de rodapé numa tese discursiva sobre a vida. Ele não é um cientista existencial que está num laboratório esterilizado e isento das contaminações das crises da vida; nem está, imparcialmente, analisando a existência, como também não está testando suas teorias sobre a vida. O escritor do eclesiastes é alguém que viveu com toda intensidade a vida como ela é. Ele viveu de tudo e agora acha que a vida não faz sentido. Ele não fez um tratado químico e psicológico sobre a maconha, ele experimentou todas as drogas da vida e a vida de drogas. Ele não foi um teórico do capitalismo selvagem, ele foi um milionário esbanjador. Ele não foi um sexólogo, ele se deitou com todo o seu harém. Ele não foi um sonhador, ele construiu todos os seus sonhos. Ele não pedia conselhos, ele era o sábio conselheiro de todos. Ele não pedia autógrafo aos famosos, ele era a celebridade mais famosa de seu tempo. Ele não era um comentarista da vida, ele experimentou toda a vida como ela é por toda vida. E no fim, concluiu: “tudo era vaidade e correr atrás do vento, e nenhum proveito havia debaixo do sol.” (Ec 2:11b).

Pensar
O eclesiastes enxerga a vida como ela é sabendo que pensar dói. E pensar sobre a vida é, muitas vezes, sair da caixa da ciência teologia e da jaula da religião. Tanto a anatomia teológica quanto a religião institucionalizada por legalismos e triunfalismos tem a ousadia de prometer a solução de todas as dúvidas, questões e crises existenciais. Salomão vai se despindo da camisa de força das respostas prontas, decoradas repetidas e superficiais da religiosidade e foge para a ousadia das perguntas. Ele não tem medo de olhar para a vida como ela é dizer que não entendeu quase nada, e que quando está entendendo; ele conclui que a vida como ela é não faz sentido. Assim, o convite de Salomão é pensar sobre a vida.
Pensar sobre a vida real é tirar os óculos cor de rosa que produzem ilusão sobre a vida. É não por panos quentes sobre as crises existenciais, nem varrer para debaixo do tapete do esquecimento e da ilusão as loucuras da vida. Mas, pensar dói muito. Dói porque é nadar contra a maré dos jargões religiosos. Dói porque é se decepcionar com as respostas superficiais da fé. Dói porque é uma luta interior contra antigas convicções abaladas pela vida como ela é. Dói porque nos retira da zona de conforto para o trabalho árduo da reflexão em busca de novas respostas.
Mas quem pensa sobre a vida se lança no vento da sinceridade e da transparência. Quem pensa se liberta da camisa de força da religião. Quem pensa destrói a irracionalidade, o conforto e a preguiça da superficialidade da fé. Quem pensa não enterra a vida e a fé no mar de rosas da ilusão. John Stott já nos ensinou que “crer é também pensar, é perguntar o que não sabe e verificar se as verdades aprendidas resistem a um teste mais rigoroso”. Quando nos abrimos para pensar sobre a vida aceitamos mais facilmente o mesmo convite que Deus fez a Isaías em 1:18: “Venham, vamos refletir juntos”. Deus não é contra as interrogações nem a reflexão introspectiva em busca da sabedoria para viver a vida como ela é. Pensar é plantar a fé embrionária no terreno sagrado do conhecimento e regá-la com reflexões com a garantia de colher frutos de fé madura, forte e produtiva. Pensar nos torna mais humanos à medida que é destruída a irracionalidade, o medo e a incredulidade. Relaxe! A idade das trevas já foi embora e levou consigo o paradigma de que ter dúvidas sobre a fé é passível de condenação nas fogueiras da inquisição religiosa. Assim, aceite o convite do eclesiastes para pensar sobre a vida como ela é; e se libertar da superficialidade e da ilusão da vida, a fim de se aprofundar na fé que não tem medo de viver a vida como ela é.

Respostas
O eclesiastes enxerga a vida como ela é sabendo que não existem respostas para todas as perguntas. Na viagem do pensamento, vamos nos deparar com a certeza de que a realidade da vida é mais complexa do que nosso discernimento pode alcançar. A vida tem muitos mistérios indecifráveis que a mente humana não tem capacidade de responder. A resposta que Salomão nos ensina a dar para as nossas perguntas é “não sei”. Ele já vivia o adágio grego de Sócrates “só sei que nada sei”. Shakespeare colocou essa sabedoria na boca de Hamlet: “Há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia” (Primeiro ato, cena cinco). Ed René kivitz, no seu mais novo livro “O livro mais mal-humorado da Bíblia”, nos ajuda a entender que nós temos a palavra revelada de Deus que é útil (II Tm 3:16) para descrever muitas “coisas importantes sobre o mundo em que vivemos e como ele deve funcionar. Por isso ela é útil. É um dos pontos em que podemos nos apoiar. Não sabemos tudo, mas sabemos o suficiente...Não é possível conhecer toda a verdade, mas é possível conhecer toda a verdade...o que desconhecemos não invalida aquilo que sabemos. O que sabemos não perde a eficácia “só” porque não sabemos tudo o que queremos saber” (p. 24).

Esperança
O eclesiastes enxerga a vida como ela é sabendo que há um Deus agindo nessa realidade aparentemente sem sentido. Por mais que o leitor seja assaltado por um desespero existencial, o livro abre espaço para perceber Deus agindo, apesar da falta de sentido da vida. Salomão, apesar do aparente caos, percebe que Deus está sobre e por trás da história da vida como ela é. A terra, o cenário da história humana, “é daquele cujos os olhos não vem sono nem de dia nem de noite” (Ec 8:16-17a). A esperança nos ajuda a reagir a nossa história de vida, interpretando a vida como ela é com os óculos de que vêem com fé Deus trabalhando em e por sua criação. Por mais absurdo que se possa entender a vida, a história humana não é despersonalizada, escrita pelo acaso, como se obedecesse ao roteiro de uma máquina programada a cumprir sozinha suas leis de auto funcionamento. O mundo não está no caos solto no acaso. Cada elemento da criação está funcionando como foi planejada para funcionar e controlada soberanamente pelo amor e graça de Deus. Dizer que o mundo veio do acaso é como dizer que houve uma explosão no alfabeto e formou-se um dicionário e um idioma que expressam a comunicação de idéias discursadas e/ou escritas. Quando o eclesiastes diz que a vida não tem significado, significa que ele não consegue enxergar sentido, mas não significa que não há sentido. Por trás das cortinas da vida como ela é debaixo do sol, ainda há um Deus, Pai, soberano e amoroso que tem em suas mãos toda a história da humanidade.

Base
           Só podemos ler o eclesiastes com os olhos mirados em Cristo; ele é a nossa base segura para darmos um salto de fé enquanto pensamos sobre a realidade debaixo do sol juntamente com Salomão. Cristo é o verdadeiro e maior eclesiastes. “Nele estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento” (Cl 2:3). A encarnação de Cristo revela toda a sabedoria e todo conhecimento. Se temos o Espírito de Jesus habitando em nós para encarnarmos o evangelho de Jesus em nossa história debaixo do sol, então, a sabedoria e o conhecimento de Cristo são o tesouro que está a nossa disposição para vivermos a vida como ela é. 
          Com essas considerações em mãos, vamos viajar pelos pensamentos sábios do eclesiastes de mãos dadas com a sabedoria da encarnação de Cristo para encarnarmos a vida de Cristo aqui e agora em nossa história debaixo do sol, e viver com sabedoria a vida como ela é.
           
Em Cristo, em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento 

Jairo Filho
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