quinta-feira, 26 de agosto de 2010

A pérola de grande valor


Jesus disse que “O Reino dos céus também é como um negociante que procura pérolas preciosas. Encontrando uma pérola de grande valor, foi, vendeu tudo o que tinha e a comprou.” (Mt 13:45). Temos que entender de antemão que Cristo é a pérola de grande valor. E quando encontramos Jesus, temos que entregar tudo a ele.
Juan Carlos Ortiz faz uma bela explicação, paráfrase e contextualização dessa parábola da pérola de grande valor. Permitam-me contá-la com minhas palavras. É mais ou menos assim:
Certo homem passava todos os dias em frente a uma joalheria. Seus olhos sempre miravam uma pérola de grande valor que estava exposta na vitrine. Cada dia que passava aumentava o desejo de possuir aquela pérola. Mas esse homem tinha certeza que nunca poderia comprá-la, porque ele pensava que custava muito caro.
Certo dia, esse homem tomou coragem e entrou nessa joalheria e perguntou ao joelheiro:
“Quanto custa essa pérola?”
“Bem”, diz o joalheiro, “ela é muito cara.”
“Mas quanto é?” perguntou o homem.
“É uma soma bem considerável.”
“O senhor acha que eu poderia comprá-la?”
“Ah, naturalmente. Qualquer pessoa pode.”
“Mas o senhor disse que era muito cara?”
“Disse.”
“Quanto é, então?”
“Tudo que você possui”, respondeu o vendedor.
O homem pensou um pouco e disse: “Está bem; eu compro.”
“Então vamos ver o que você possui. Vamos anotar tudo aqui.”
“Bem, tenho dez mil dólares no banco.”
“Dez mil dólares. Ótimo. E o que mais?”
“Só isto. É tudo o que possuo.”
“Nada mais?”
“Bem, tenho alguns trocados no bolso.”
“Quanto?”
“Bem, aqui está, trinta, quarenta, sessenta, oitenta, cem, cento e vinte dólares.”
“Ótimo. O que mais você tem?”
“Nada mais. Isto é tudo.”
“Onde você mora?” Indaga ele querendo sondar.
“Em minha casa. É, eu tenho uma casa.”
“Então, dê a casa também”, e acrescentou a casa na lista.
“Está querendo dizer que tenho que morar em minha tenda de camping?”
“Possui uma tenda também? Ela também entra no negócio. O que mais?”
“Terei que dormir no carro.”
“Ah, possui um carro.”
“É, na verdade tenho dois.”
“Todos os dois passam a ser meus. O que mais?”
“Bem, o senhor já está com meu dinheiro, minha casa, minha tenda, meus carros. O que mais quer?
“Você é só no mundo?”
“Não; tenho esposa e dois filhos...”
“Então a esposa e os filhos são meus também. O que mais?”
“Não resta mais nada. Estou sozinho agora.”
“Ah, quase me esquecia. Você também. Tudo agora é meu – sua esposa, filhos, dinheiro, carros e você também.”
E depois o joalheiro continua: “Agora escute: Deixarei que você fique com estas coisas por enquanto. Mas não se esqueça que elas são minhas assim com você também. E quando eu precisar de qualquer uma delas, você terá que entregá-las, pois eu sou o proprietário.
E é assim que as coisas se passam quando estamos sob o domínio de Jesus Cristo. É assim que temos que encarar tudo o que possuímos na vida e as perdas da vida. Não temos nada. Tudo o que temos está sob o Reino de Deus. E a qualquer momento ele pode pegar de volta o que é dele. Enquanto isso, seja apenas um fiel mordomo.
 
Em Cristo, a pérola de grande valor

Jairo Filho

O doador da vida


Respeitável público cristão, senhoras e senhores, meninos e meninas, quero contar a todos vocês a história do DOADOR DA VIDA. Mas prestem atenção, essa história pode mudar a tua vida.
Há muito tempo atrás o maior artista do universo decidiu criar bonecas bailarinas para dançarem a música da vida.
E disse o criador: “Haja vida”. E houve vida. O criador soprou nas narinas o fôlego de vida nas bonecas. E elas começaram a viver dançando em plena comunhão com o seu criador.
As bailarinas foram criadas para dançarem livremente enquanto vivem em harmonia uma com a outra. A cada passo, um sorriso, em cada gesto, a celebração da vida se expressando em comunhão. Elas foram criadas para dançarem em gratidão ao seu criador.
Até que um dia, enquanto elas estão vivendo dançando, começam a competir entre si. O coração delas é contaminado pelo vírus da inveja, orgulho, ódio, intriga, inimizade, vaidade e arrogância. E ainda decidem viver dançando outras músicas, diferentes da música que foram criadas para dançar. Elas dançam a música da morte. E acabam morrendo dançando.
Assim, elas caíram da dança e adoeceram contaminadas pelo vírus maligno. Elas ficaram cegas. Cada uma cegou a outra com o seu vírus. Elas não enxergavam nenhum palmo a sua frente. Assim, seus movimentos da dança ficaram desarmônicos, imperfeitos, deselegantes e feios.
O criador decide chamar suas bonecas para que elas apresentem uma dança. Mas como elas poderão dançar se estão doentes, cegas e morrendo contaminadas pelo vírus?
Então o criador chama: Meninas, venham aqui, dancem pra mim. Minhas bonecas, onde vocês estão?
O criador percebe que suas bonecas estão doentes e inválidas para viverem dançando. O criador fica sentido pela doença das bonecas e decide salvá-las por amor à sua criação. Mas somente um sangue puro pode purificar, salvar e curar as bonecas do vírus mortal. Mas quem tem um sangue bom e puro? E ainda mais, quem seria capaz de doar seu próprio sangue para salvar bonecas rebeldes e contaminadas pelo vírus mortal?
Então, o único filho do criador aparece e resolve tomar a iniciativa de ir ao encontro delas por amor de seu pai e das bonecas. Seu único filho, resolve doar seu sangue puro para salvar as bonecas da morte eterna. Mas para haver doação, é preciso haver sacrifício do seu filho. Ele precisa doar todo seu sangue até morrer.
O filho do criador vai ao encontro das bonecas, olha para elas e diz: “Ninguém tira a minha vida de mim; pelo contrário, eu espontaneamente a dou. Tenho autoridade para entregá-la e também para reavê-la. Este mandato recebi de meu pai. (Jo 10:18).
Ao fim do derramamento de sangue, o filho do criador oferece seu sangue às bonecas. E cada uma delas dá a sua resposta à sua oferta de amor.
As duas bonecas estão doentes e morrendo, mas uma delas prefere disfarçar sua doença com a máscara da saúde própria. O filho do criador oferece seu sangue, mas ela o rejeita. Ela prefere criar seu próprio remédio. Ela coloca algumas gotas de boas obras, uma porção de penitências como jejum, oração, oferta aos pobres, uma colher de obediência, uma pitada de orgulho e uma xícara de dinheiro. Está pronto o remédio venenoso da justiça própria.
E essa boneca mascarada diz: Eu não preciso do seu sangue, eu mesma fiz o meu próprio remédio. Eu sou uma ótima dançarina, não estou doente, contaminada nem cega. Quem é cego é quem não ver como sou uma boneca perfeita e poderosa que não precisa de ajuda de ninguém. Eu mereço um prêmio de melhor boneca da criação. Eu mesma sou a salvadora de mim mesmo. Eu sou a minha cura.
E assim, a boneca mascarada toma o seu próprio remédio: o veneno da sua saúde própria. Enquanto isso, o efeito colateral do seu próprio remédio começa a fazer efeito: ela começa a ficar cada vez mais fraca e vai morrendo sozinha, agonizando de dor. E morre.
O filho do criador agora oferece seu sangue para a boneca doente e carente. E ela ligeiramente, com muito desespero e extrema carência aceita a transfusão do sangue puro do filho do criador.
O filho do criador diz: Receba a fórmula da vida. Tenha vida e vida em abundância.
            E assim, acontece a transfusão de sangue. A boneca vai se enchendo de vida. E ela se levanta cheia de felicidade. 
            Agora, cheia de vida, a boneca salva e curada começa a viver dançando a melodia do seu criador como resposta de gratidão pela salvação não merecida doada pelo filho do criador.
             Quem é você nessa história?
 
Em Cristo, o doador da vida

Jairo Filho e Fernanda Amaral

O taxista Pedro Zé(v)angélico e o jornalista


São 15:00. Um jornalista apressado chama o táxi. O táxi chega. E o motorista, Pedro Zé, já começa o assunto.

Pedro Zé: Oi. Boa tarde. Onde o senhor deseja ir?

Jornalista: Leve-me até a avenida principal da cidade.

Pedro Zé:  OK!

O jornalista, muito curioso, observa vários versículos bíblicos colados no carro. E pergunta: O senhor é crente?

Pedro Zé responde: Não. Não sou crente não. Eu sou evangélico. Todo mundo é crente, mas só alguns são evangélicos.

Jornalista:  É mesmo? E o que é ser evangélico?

Pedro Zé:  Ser evangélico é ser um crente fiel da igreja evangélica. É ser membro. É ir a todos os cultos da igreja. Falando nisso, eu queria convidar o senhor a ir no culto de hoje a noite na minha igreja. Hoje vai ser o culto da benção sem fim.

Jornalista: Onde é tua igreja?

Pedro Zé:  É aquela igreja grande que fica na avenida principal.

Jornalista: Ah! Eu vou descer perto dessa igreja. E como são os cultos da tua igreja? Em que você crer?

Pedro Zé:  O culto é benção pura. A unção desce naquele lugar. Eu gosto de lá, porque lá prega que só Jesus Cristo é o Senhor. Nessa igreja eu aprendi que Deus salva apenas as pessoas obedientes e santas – por isso eu oro, faço jejum, evangelizo todo mundo, vou a igreja, me santifico. Graças a Deus eu sou um crente muito fiel. E eu falo isso com muita humildade.

Jornalista: E o que se prega nesses cultos?

Pedro Zé:  O pastor prega que Deus abençoa somente quem se sacrifica. Quando alguém quer receber uma graça de Deus tem que dar alguma coisa em troca para Deus. Por ex: Você quer aumento de salário, então dê a Deus muitas ofertas em R$ que seja um sacrifício pra você na corrente da fé. Ou seja, o tamanho da benção depende do tamanho do sacrifício. E eu creio nisso. Por isso que sou evangélico.

Jornalista: E mesmo depois de ofertar, se o crente não receber a benção que tanto espera?

Pedro Zé:  Se não receber, é porque o crente não cumpriu toda a campanha da fé. São 7 semanas de corrente de fé “bençãos sem fim”. Deus honra somente aqueles que perseveram. Mas, olha, o senhor não pode faltar nenhuma noite, nem desistir no meio da corrente, senão, tem que começar tudo de novo. E se faltar, perde a benção. O senhor não vai querer perder a benção, né?

Jornalista: E se o crente faltar um culto ou não ofertar?

Pedro Zé:  Deus não vai dar a benção para os infiéis. Deus abomina aqueles que pecam e quem desiste de perseverar na corrente da fé. Por isso, eu não falto a nenhum culto, senão eu perco a benção e Deus pode me castigar.

Jornalista: E o senhor já ganhou as bênçãos que tem pedido a Deus?

Pedro Zé:  Meu filho ainda não foi curado do câncer, porque eu faltei a dois cultos. Nesses dois dias eu faltei porque precisei ganhar mais dinheiro fazendo duas viagens pra dar de oferta na igreja, e, quando eu cheguei na igreja, o culto já tinha terminado. Eu me sinto culpado até hoje por causa desse meu pecado. Se não fosse isso, meu filho já teria sido curado. Acho que é por isso que meu filho mais velho ainda está nas drogas também.

Jornalista: Então o senhor carrega culpa?

Pedro Zé:  O que não dá certo na minha vida é culpa minha. Deus nunca é culpado de nada. Lá na nossa igreja é diferente da outras igrejas. Lá, nós temos muito respeito por Deus. Com Deus não se brinca. Se não houver sacrifício de nossa parte, Deus não abençoa. Deus nos chama a carregar a cruz como sacrifício pra ele. É assim que é, e é assim que deve ser.

Jornalista: Tá bom! Obrigado. Chegamos onde eu queria. Pode ficar com o troco pra você dar na igreja por mim, pra vê se Deus me salva.

Jornalista chega ao seu destino. Ele se encontra com um amigo para uma reunião de negócios. E os dois começam a conversar.

Jornalista: Acabei de ouvir um papo religioso com um taxista careta cheio de culpa. Ele vive indo a igreja pra ser mais santo com medo de Deus. Ele nem sabe, mas ele tá tentando comprar o favor de Deus com seus dízimos.

Amigo do Jornalista: Esses crentes são todos uns loucos. A minha avó vai numa igreja que só tem pessoas esquizofrênicas. Na igreja dela as pessoas se vestem esquisito. Não aceitam pessoas como elas são. Os irmãos da igreja dela nem conversam comigo, só porque eu uso tatuagem e tenho esse cabelo. Eles se acham melhores do que eu.

Jornalista: O taxista crente me passou uma imagem de um Deus muito injusto; um Deus que está 24 horas nos vigiando só para nos castigar. Pareceu-me um Deus corrupto onde um dízimo e uma freqüência assídua a igreja pode apagar a ira Dele. Isso significa que eu posso comprar a benção de Deus. E assim, a benção deixa de ser de graça. Eu não entendo esses crentes. Por isso que eu não vou a igreja. Busco a Deus do meu jeito.

Amigo do Jornalista: Eu não preciso ir a igreja para buscar a Deus. Eu não preciso entregar dinheiro para os pastores, nem ser um santo para ir ao céu. Eu faço caridade uma vez no mês naquela creche. E isso já basta. Além do mais, se minha salvação dependesse da minha santidade eu tava frito. Eu nunca vou ser aceito. Deus não aceita fumantes nem bêbados como eu.

Jornalista: Meu tio foi pastor de uma grande igreja. Mas descobri depois que ele roubava tanto. Ele era tão rigoroso com as regras da igreja, mas soube que ele tinha várias amantes. Por isso eu não vou a igreja. Deus é injusto, Ele permite tanto sofrimento e nem sequer dá uma mãozinha pra gente. Lembro que quando eu perdi minha mãe, me senti tão só, desesperado e me disseram que minha mãe não foi curada porque eu não tive fé. Eu tive muita paciência para aturar aquele taxista crente. Quase que eu dizia a ele para não acreditar mais em Deus porque não vale a pena servir a Deus. O filho dele pode até mesmo morrer. E a culpa será de Deus. E o coitado fica sacrificando a vida toda e prol de um Deus que não nos ajuda no sofrimento.

Amigo do jornalista: É verdade. Por isso eu curto a minha vida do meu jeito. Não tô nem aí para igreja e pra esse papo careta de religião. Eu sou a minha religião. Eu determino o meu jeito de viver. Falando nisso, marquei com aquelas meninas, uma festa lá na minha casa hoje a noite.

Jornalista: Hoje vai ser a noite da paixão; não a paixão de Cristo, mas a nossa paixão. Vamos lá?

Amigo do jornalista:
É isso aí, vamos aproveitar esse feriado longe da igreja e perto da mulheres....



É assim que falam os evangélicos. É assim que falam do "evangelho". É assim que falam dos evangélicos.

Esse é o perfil de nossa geração.

Que evangelho temos vivido e pregado?

Pense bem!

Jairo Filho - Escrito em 07 de abril de 2007 com muitas inquietações no coração sobre a diferença entre evangelho e religião.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Como amar o inimigo sem ser hipócrita?


Sabemos que todo mundo fala de amor. Filmes, histórias, poesia, músicas e livros são alguns exemplos das publicações do amor. E ainda sabemos que em todo relacionamento buscamos amar e ser amados. A família, o casamento, a amizade e as diversas parcerias da vida são cenários das relações de amor. Porém, são nesses mesmos contextos que surgem as maiores crises de relacionamento: ofensas, intrigas, inimizade, separação e clicos de vingança etc.

Diante do desejo de amar e da crise dos relacionamentos, a quem eu devo amar? Essa foi a pergunta feita a Jesus pelo perito da lei (Lc 10:29). Ele pensou: "Se devo amar o meu próximo, quem é o meu próximo? A quem eu devo amar?" Jesus responde a essa pergunta contando a história de dois inimigos de raça, cultura e crenças diferentes que se encontram no caminho da vida. Um deles salva o que estava quase morto pedindo socorro, doando tudo o que tem de melhor para o seu inimigo. Nessa história, Jesus ensina que o próximo pode ser também o inimigo. Isso nos lembra Jesus dizendo: “amai os vossos inimigos” (Mt 5:44).

Diante disso, alguém já perguntou: "Como eu posso amar o inimigo? Se amá-lo, vou ser descaradamente falso". Esse dilema surge porque temos idéias estranhas sobre o amor.

Primeiro temos que pensar sobre os vários significados da palavra amor. Diferentemente da língua portuguesa, o grego apresenta pelo menos 3 palavras para o amor: Phileo é o amor da amizade. Eros é o apaixonado amor entre homem e mulher. E o amor Ágape é o amor divino, resistente, eterno. Phileo e Eros são sentimentos conquistados por merecimento; já o ágape é decisão de amar imerecidamente sem trocas ou reciprocidade. Jesus nos ordenou a exercitar o amor ágape nos relacionamentos quando disse: “Novo mandamento vos dou: que vos amei uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros”. (Jo 13:34). Podemos destacar aqui a lição de que devemos amar uns aos outros com o mesmo modelo, padrão e exemplo do amor de Jesus. Assim, devemos olhar para Jesus e saber como ele amou uns aos outros. Olhando para a vida de Jesus podemos aprender pelo menos 3 lições sobre o significado do amor em nossos relacionamentos:

1. O amor ágape segundo Jesus é muito mais do que gostar de alguém. Amar é diferente de gostar. Devemos amar todo mundo. Isso não significa que devemos gostar de todo mundo. Nós gostamos de algumas pessoas e não gostamos de outras. Mas devemos amar todas as pessoas, inclusive aquelas de quem não gostamos. Você não precisa gostar para amar. Deve inclusive amar sem gostar. Jesus não gostava de seus inimigos religiosos e políticos, porém, amou todos eles. Isso significa que amar não é gostar do inimigo ou ter afinidade com ele. Isso implica que amar não impede de denunciar a injustiça, protestar contra a maldade, reinvidicar os direitos humanos nem disciplinar quem erra. Vemos que Jesus não demonstrou seu amor fazendo serenatas de saudades para os religiosos fariseus, nem escreveu cartas de amor para os ladrões do templo, nem fez homenagens para Herodes. Mas Jesus amou todos eles, inclusive, ao ponto de denunciar o pecado deles e dar sua própria vida para salvá-los. Enfim, Jesus amou seus inimigos, mas não gostou deles, não aprovou seus erros nem se alegrou com as injustiças deles (I Co 13:6).

2. O amor ágape segundo Jesus ultrapassa a convivência íntima. Amar não é necessariamente conviver intimamente com todas as pessoas em todo o tempo e transformar sua casa na “casa da mãe joana”. Aprendemos nos evangelhos que o amor de Jesus respeitava fronteiras e limites de convivência. Jesus vivia distante de seus inimigos religiosos e políticos, era mais formal com a multidão, porém mais próximo dos 70, mais chegado dos 12, mais ligado a 3 (Pedro, Tiago e João) e mais íntimo de um (João – quem encostou a cabeça sobre os ombros de Jesus). Isso significa que não é necessário conviver intimamente com certas pessoas para amá-las. Acredito que existem relacionamentos que devem promover amor numa convivência à distância. Não vemos Jesus comendo pizza com os fariseus, nem indo ao shopping com herodes, nem passeando na praça com os soldados romanos; pelo contrário, Jesus fugia deles. Isso nos diz que Jesus convivia separado de seus inimigos; porém os amou mesmo a distância, a tal ponto de dar a sua vida para realizar a reconciliação pelo seu sacrifício na cruz. Assim, Jesus mandou amar os inimigos e não ter intimidade com eles. Fuja dos inimigos que vos perseguem, porém os ame de longe.

3. O amor ágape segundo Jesus é incondicionado a roupa social, cultural e religiosa. O olhar de Jesus despia a personagem que todos vestiam para olhar o ser humano que cada pessoa é. Ele não enxergava apenas uma adúltera ou prostituta, mas uma mulher carente de amor. Jesus não enxergava apenas um pobre, ou um leproso ou um endemoniado, mas um ser humano carente, doente e oprimido. Jesus não enxergava impressionado apenas o glamour dos cargos políticos nem o status social e religioso dos fariseus, mas ele enxergava um ser humano perdido e morto em seus pecados. Jesus não enxergava apenas um rico, corrupto, cobrador de impostos, traidor e ladrão como Zaqueu, mas enxergava um homem pobre de espírito, com o coração vazio e carente da maior riqueza do mundo, o amor de Deus. Jesus não enxergava apenas o seu inimigo ofendendo, perseguindo e traindo; mas ele enxergava um ser humano doente no caixão do seu egoísmo. Assim, Jesus amou o ser humano despido de sua roupa social, cultural e religiosa. Isso significa que devemos amar o inimigo, porque antes de ser um inimigo, ele é um ser humano. Por isso, podemos amar o inimigo como Jesus amou.

As palavras e a vida de Jesus ecoam nas palavras de Paulo, apóstolo, que diz: “O amor seja sem hipocrisia...Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal,...abençoai os que vos perseguem, abençoai e não amaldiçoeis...se teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber, porque, fazendo isto, amontoarás brasas vivas sobre a sua cabeça. Não te deixes vencer o mal, mas vence o mal com o bem”. (Rm 12: 9a, 15, 20 e 21). Assim, podemos concluir que amar não é sentimento, intimidade nem tratamento condicionado à personalidade, mas amar é dar tudo o que somos e tudo o que temos em favor do bem da pessoa amada; mesmo que seja o teu inimigo, mesmo que seja dar aquilo que a pessoa não deseja, mas precise para gerar transformação e vida. Amar é fazer o bem aqueles que não o merecem. Faça isso e reproduza nos seus relacionamentos o que Deus já fez e faz por vc todo dia (Rm 5:8). Lute e vença o mal do ciclo vicioso e ininterrupto da vingança e do ódio com o bem do amor.


Em Cristo, o amor encarnado pelos seus inimigos

Jairo Filho

sábado, 21 de agosto de 2010

Vida Instável

Ontem, acordei no útero
Hoje, vivo minha vida
Amanhã, dormirei na sepultura

Ontem, eu não era
Hoje, eu sou eu nas minhas circunstâncias
Amanhã, não serei mais o que sou hoje

Ontem, esperava o amanhã
Hoje, lembro-me de ontem
Amanhã, viverei o hoje

Ontem, não estava aqui
Hoje, voltei pra ficar
Amanhã, posso sair

Ontem, tinha a convicção da minha tese
Hoje, abri mão e ouvi a antítese
Amanhã, faço a síntese virar tese da antítese.

Ontem, era ateu
Hoje, tenho fé em Deus
Amanhã, vida eterna

Ontem, tinha fé
Hoje, tenho dúvidas
Amanhã, só Deus sabe

Ontem, queria desistir de tudo
Hoje, quero mudar o mundo
Amanhã, eu nem sei se mudarei a mim mesmo

Ontem, minh’alma estava perturbada
Hoje, estou em paz
Amanhã, quem sabe do meu estado de espírito?

Ontem, estava só
Hoje, estou com você
Amanhã, ainda quero você

Ontem, eu te vi
Hoje, quem te viu, quem te vê!
Amanhã, quem é você?

Ontem, demos as mãos
Hoje, rimos de mãos dadas
Amanhã, choraremos de mãos separadas?

Ontem, inimigo
Hoje, amigo
Amanhã, herói

Ontem, te amava
Hoje, me esquece
Amanhã, volta pra mim

Ontem, você me abraçou
Hoje, você me bateu e me abateu
Amanhã, ofereço a outra face do perdão

Ontem, tinha você perto de mim
Hoje, você está longe de mim
Amanhã, espero te reencontrar em mim

Ontem, decepção
Hoje, lamentação
Amanhã, esperança

Ontem, sonhei
Hoje, realizei
Amanhã, tudo outra vez

Ontem, tinha medo
Hoje, coragem
Amanhã, espero a vitória

Ontem, era analfabeto
Hoje, leio e escrevo
Amanhã, serei autor de livros

Ontem, pensei em escrever isto
Hoje, escrevi isto
Amanhã, posso apagar tudo isto

Ontem, fui
Hoje, sou
Amanhã, serei

Ontem, só tu és o mesmo Deus no mesmo dia.
Hoje, só tu és o mesmo Deus nos mesmo dia.
Amanhã, só tu és o mesmo Deus no mesmo dia.

“Nada é permanente, senão a mudança” (Heráclito). Vivemos em constante transição. Às vezes, somos estáveis; outras vezes, somos dinâmicos e instáveis; mas sempre mudando e sendo mudados; seja em evolução, involução ou destruição. Esta mesclagem de sentimentos e movimentos da vida em constante mutação, nos fazem ser quem éramos, quem somos e quem seremos: Criaturas humanas instáveis. Mas só Deus é o mesmo ontem, hoje e amanhã no mesmo dia.

Assim, posso completar: realmente, nada é permanente, exceto a mudança de nós mesmos e Deus. E por isso, entrego minha finita vida instável ao Deus eterno e imutável.

Em Cristo, o imutável amor de Deus
Jairo Filho - 2006

Estou cansado. Não aguento mais.


 I
Estou cansado de fingir que está tudo bem.
Não agüento mais mascarar minhas crises e decepções.
Estou cansado de tentar ser um super-man.
Não agüento mais tantas dúvidas e indecisões em minha mente.
Estou cansado de ser insensível e indiferente a minha dor.
Não agüento mais engolir meu choro.
Estou cansado de ficar calado e não gritar.
Não agüento mais não poder ser humano. Por isso, solto meus gritos de lamento e desabafo.

II
Estou cansado de levar o peso da obrigação de ser um super-crente.
Não agüento mais não viver e arriscar por medo de ser condenado.
Estou cansado de carregar o julgo de ser referencial de vida para os outros.
Não agüento mais os olhares e expectativas que vigiam meus dons e caráter para flagrar meus erros e me condenar.
Estou cansado de sacrificar os bons momentos de minha vida em nome de uma santidade forjada pelos outros.
Não agüento mais vender a liberdade de ser eu mesmo por um punhado de adulação que obriga a ser o que querem que eu seja.

III
Estou cansado de esperar o tempo de Deus agir.
Não agüento mais clamar e ouvir o silêncio de Deus.
Estou cansado de ser esquecido por Deus.
Não agüento mais viver enterrado no ócio depressivo.
Estou cansado de agonizar de dor.
Não agüento mais me afogar em lágrimas.
Estou cansado da sepultura do niilismo existencial.
Não agüento mais gemer de tanta dor.
Estou cansado das minhas crises existenciais de fé.
Não agüento mais minha pequena fé.
Estou cansado do meu desespero.


IV
Não agüento mais meus fracassos, fraquezas e erros.
Estou cansado da minha mente ociosa e ansiosa para fazer o mal que não quero fazer.
Não agüento mais me perder no labirinto carnal do meu coração cheio de depravação da luxúria, da ostentação do poder e da gula insaciável do consumismo.
Estou cansado de ser destruído pelo meu próprio egoísmo.
Não agüento mais viver preso no porão da minha alma pecadora.
Estou cansado de lutar contra a minha carne e perder.
Não agüento mais como está minha peregrinação espiritual cristã.
Estou cansado da minha espiritualidade vazia e sem rumo.
Não agüento mais o desprazer na leitura bíblica e na oração.
Estou cansado das vezes que fazer o bem é algo tão especial e sacrificante; e fazer o mal é tão normal e prazeroso em mim.
Não agüento mais não entender os pecados que faço.
Estou cansado de não conseguir fazer o bem que desejo.
Não agüento mais o ciclo vicioso de confessar meus pecados, pedir perdão, ser perdoado e voltar a cair.
Estou cansado de acreditar em mim.
Não agüento mais planejar recomeçar na segunda e não começar.
Estou cansado de decepcionar a mim mesmo.
Não agüento mais esse miserável homem que sou.

V
Estou cansado de tentar me explicar pra todo mundo e não ser entendido.
Não agüento mais dar satisfação de tudo o que faço ou deixo de fazer àqueles que não me amam.
Estou cansado da ilusão de tentar desabafar minhas crises para alguém e ser ignorado pela indiferença e condenado pelo medo e pela culpa.
Não agüento mais discutir picuinhas que não levam a nada.
Estou cansado de acreditar demais nos outros e me decepcionar.
Não agüento mais as mentiras, hipocrisias e partidarismo competitivo na teledramaturgia da nossa convivência eclesiástica.
Estou cansado de não ter tempo pra quem eu amo.
Não agüento mais estar longe de quem eu amo.

VI
Estou cansado da instituição igreja.
Não agüento mais o efeito entorpecente das pregações triunfalistas da prosperidade.
Estou cansado de ver a minha igreja evangélica brasileira ser transformada num corrupto comércio de covil de ladrões e as bênçãos de Deus serem vendidas pela moeda da fé.
Não agüento mais os shows bussines gospel de entretenimento em vez de culto de celebração em adoração e comunhão.
Estou cansado da teologia produzida nos caros congressos evangélicos que são alheios a vida real e nem se engajam com/na igreja povo.
Não agüento mais o complexo de culpa, medo e castigo pregado pelo legalismo religioso.
Estou cansado de ouvir as respostas e soluções simplistas da justiça moral e retribuitiva de causa e efeito para os mais complexos dramas da vida.
Não agüento mais ouvir sermões temáticos fora do contexto como pretexto para dizer o que se quer dizer para dizer o que o povo quer ouvir.
Estou cansado de presenciar a igreja ser consumida pela inércia do ócio egoísta e não sair para cumprir a grande comissão.
Não agüento mais ver as planilhas financeiras da igreja trocarem a ajuda ao pobre por projetos egoístas de construção das paredes de templos em nome do poder da tradição. 
Estou cansado de ver as igrejas-ilhas isoladas, arrebatadas e alienadas sublimarem sua encarnação no mundo psico-sócio-político cultural da vida real fugindo para a espiritosfera de seus cultos extáticos.
Não agüento mais a teologia das igrejas que salvam a boa alma do cárcere do corpo mal.
Estou cansado das igrejas que dizem sim a Deus e não a vida; dizem sim ao céu e não ao mundo aqui e agora.
Não agüento mais os pastores que se alienam em seus gabinetes de ar-condicionado enquanto seu rebanho sozinho passa fome em campos áridos.
Estou cansado também daqueles que prostituem seu chamado em reuniões da cúpula clerical da denominação em nome da ganância do poder político eclesiástico.
Não agüento mais ouvir pastores subirem ao púlpito e projetar seus fracassos no rosto do oprimido.

VII
Não agüento mais falar demais de Deus.
Estou cansado demais para falar de Deus.
Não agüento mais minha soberba teológica fazer uma anatomia de Deus.
Estou cansado de correr nos trilhos da teologia e não pôr freios no meu discurso teológico.
Não agüento mais falar tagarelice de ignorâncias teológicas.
Estou cansado de domesticar e manipular Deus com meus raciocínios teológicos.
Não agüento mais estar em ambientes acadêmicos que tentam acorrentar o modus operandi de Deus para alimentar a soberba do conhecimento teológico.
Estou cansado de viver dentro de estruturas protestantes que em nome da tradição da história eclesiástica praticam uma hermenêutica produtora de crenças que são nada mais que crendices baseadas em ignorância e credulidade superticiosa aprendidas pela tradição oral dos púlpitos.
Não agüento mais as mensagens legalistas que interpretam a Bíblia para confirmar seus dogmas culturais e eclesiásticos.
Estou cansado dos acoites que disciplinam mais por causa de infrações ao estatuto interno da igreja do que pela desobediência a Palavra de Deus.
Não agüento mais ser juiz de Deus quando eu o coloco no banco dos réus da minha dor.
Estou cansado das minhas presunções sobre a Verdade
Não agüento mais falar aos outros o que Deus não disse.
Estou cansado de ouvir e fazer especulações e elucubrações teológico-filosóficas rasas e simplistas desconectas da vida real.
Não agüento mais as teorias dos meus livros que não funcionam.
Estou cansado das promessas dos pacotes e modelos importados de crescimento explosivo de igreja alienados de nosso contexto brasileiro.
Não agüento mais não viver o que prego e pregar o que não vivo exigindo que se viva o que não consigo viver.
Estou cansado de resolver os problemas das pessoas, mas sou incapaz de resolver os meus problemas pessoais.
Não agüento mais responder as perguntas dos outros e não ter respostas para as minhas perguntas.
Estou cansado de tentar decifrar o conflito inexplicável do mistério divino nos bastidores da história da minha vida.
Não agüento mais minhas teologias produzidas, lidas e estudadas sem oração nem temor, tremor e amor diante da majestade, soberania e poder de Deus.
Estou cansado de escrever minhas frágeis experiências de fé e ser condenado pelos super-crentes por ter coragem de desabafar os lamentos da minha alma.

VIII
Estou cansado de tanto lamentar e desabafar.
Estou cansado do meu cansaço.
Estou cansado. Não agüento mais. Chega. Ufa! Cansei.
“... mas os que esperam pelo Senhor renovam suas forças.” Is 40:29.

Em Cristo, o meu descanso e alívio

Jairo Filho – escrito no outono de 2006.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Do lamento ao engajamento


Não tem como esconder que temos todos os motivos do mundo para viver lamentando e para lamentar vivendo. Nossa geração vive um clima de decepção existencial, espiritual e social. Hoje, celebramos o funeral de nossos sonhos pessoais, de nossos ideiais de vida moral e espiritual, e de nossas utopias políticas-sociais para um mundo melhor. Estamos vivendo uma crise de depressão, decepção, frustração, dúvidas, raiva desilusão, desencatamento, tristeza, pertubação, descrença, desânimo, desalento, insegurança, perdas e danos. É trágico dizer que estamos vivendo sem destino, sem esperança e sem sentido. Agora, só nos resta o lamento como nosso consolo e desabafo, é concordar com o refrão do sábio de eclesiástes de que “Tudo é ilusão” e “Nada faz sentido”. 
         Não tem como esconder nosso lamento pela decepção existencial que nos cerca. Parece que muitos de nossos sonhos pessoais são destruídos por capricho do destino. Ás vezes, a vida parece ser tão injusta: Os ruins são recompensados, enquanto os bons são castigados (Ec 7.15). Enquanto isso, o sonho de estudar numa faculdade, do casamento feliz, da casa própria, do emprego, da educação dos filhos, da saúde perfeita, das férias merecidas, da viagem dos sonhos e da vida feliz nem sempre se realizam como desejamos. Ás vezes, não dá pra não esconder aquele choro provocado pela saudade, rejeição, traição, abandono e falsidade. Parece que não adianta mais confiar nas pessoas que nos relacionamos. A única saída é fechar nosso coração para não se envolver com mais ninguém nem confidenciar nossas intimidades com mais ninguém. Chega de envolvimento. Os relacionamentos pessoais só nos machucam. Também lamentamos porque cansamos de tentar mudar nosso jeito de ser para agradar a todos e não conseguimos. Chegamos a conclusão de que nunca seremos tão bons quanto se espera que sejamos. Quando lemos a Bíblia, somos sempre reprovados. Quando pensamos que estamos fazendo tudo certo, nos surpreendemos com nossa reprovação pelo alto padrão de obediência exigido por Deus. Por isso, não tem como não lamentar por nós mesmos.
Não tem como esconder nosso lamento pela decepção com a imoralidade social que nos cerca. Lamentamos porque aquela liberdade de expressão que surgiu como grito de liberdade contra a ditadura relativizou os absolutos morais e espirituais. Não temos mais um padrão da verdade. Tudo é subjetivo e julgado pela emoção de cada um. Com isso, a liberação sexual transformou os relacionamentos em encontros superficiais, descartáveis e vazios de amor. O individualismo surgiu como meio de liberdade e independência, mas acabou nos enterrando na insegurança da solidão e nos alienando dos gritos de socorro do nosso próximo. O consumismo do capitalismo selvagem prometeu prosperidade, mas acabou nos algemando em dívidas e prestações. A televisão só mostra reportagens que noticiam tragédias, catástrofes, violência, pobreza, fome, miséria, corrupção política, roubos, mortes, sofrimento e guerras. Os programas de entretenimento doutrinam o povo a viver e aceitar passivamente o adultério, mentiras, ódio, vingança, traição, arrogância, glamourização dos conflitos familiares e etc. É trágico dizer que estamos num estado de calamidade pública sem nenhuma referência moral para nos guiar. Com isso, o sonho da honestidade, da solidariedade, do altruísmo, da fraternidade, da paz, do amor verdadeiro, da fé em Deus e da justiça é totalmente destruído. Esse é o nosso lamento social. 
Não tem como esconder nosso lamento pela decepção espiritual que nos cerca. Estamos cansados de ouvir histórias dos gritos de dor e decepção de mulheres que perderam seus filhos depois de ter dado tantos dízimos e ter feito tantas campanhas de oração na igreja para comprar a cura de Deus para seu filho. São vítimas que acreditaram num Deus pintado por pastores picaretas que se acham porta vozes e mediadores de Deus enquanto cobram pedágio-dízimo para pessoas lucrarem alguma benção de Deus nos corredores de seus mega-templos. Vejo seminaristas, pastores e teólogos decepcionados com o intelectualismo teológico vazio, alienado e sem vida que se propagam nas faculdades e congressos. Cansamos de presenciar pessoas sendo vítimas do complexo de culpa e do medo de Deus tentando apagar Sua ira com altas indulgências na tentativa de comprarem o perdão de Deus para serem salvas ou continuarem salvas. Ainda vejo a geração cristã decepcionada com os cultos da marcha ré do evangelho. Porque em vez dos líderes evangélicos levantarem uma voz de denúncia profética contra as injustiças em nosso país, levantam apenas vozes famosas no show da fé evangélica para cantar músicas de entretenimento e deixar o povo ainda mais alienado e de bem com a vida que tem. É um falso evangelho que marcha atrás do vento. E não passa de vaidade. Tudo isso é vaidade. Irmãos, eis nosso lamento.
Não tem como esconder nosso lamento pela decepção com os movimentos políticos-sociais de nosso país. Lembro que Cazuza já era vítima da decepção político-social quando lamentava em suas musicas: ”Aquele menino que queria mudar o mundo, assiste tudo em cima do muro. Meus heróis morreram de overdose. Meus inimigos estão no poder. Ideologia, eu quero uma pra viver”. Nossa geração perdeu seu referencial, seus modelos, seus heróis e com eles, seu furor de revolução e luta por justiça social, por não acreditar mais em nenhum tipo de transformação. E agora assiste o espetáculo da corrupção destruir nosso país sentada em cima do muro da dúvida, da indiferença e do ceticismo. Os movimentos politicos-sociais brasileiros que lutavam pela justiça e igualdade social fracassaram quando chegaram ao poder. Que o diga aquele ex-líder operário que esqueceu de sua luta pela igualdade social e pela revolução do proletariado brasileiro na presidência do país mais desigual do mundo. Do outro lado, a população não tem mais segurança pública. Não temos mais saída: Se ficar, a máfia dos anões, mensalões e sanguessugas come o dinheiro público. Se correr, o PCC nos pega na rua. E se fugir para o campo é arriscado que os sem vergonhas tenham invadido e saqueado o que é seu e te deixado sem terra. Sem falar que desde sempre, os políticos soltam suas teorias, promessas e projetos nas campanhas eleitorais para solucionar os problemas da fome, desemprego, violência, educação, saúde e moradia, com discursos que não passam de conversa fiada. Que espírito votar nas eleições? Para nossa geração, o Brasil que nasceu torno nunca se indireita. E não adianta fazer mais nada. Companheiros, seja nosso lamento ouvido nos corredores do planalto. 
Não tem como esconder nossas decepções com a indiferença e insensibilidade estóica. Como disse antes, temos muitos motivos para viver lamentando e lamentar vivendo. Por isso, minha empatia amiga lamenta agora com você por todas as nossas decepções. Considero que lamentar é reconhecer nossa fragilidade, limitação, finitude, vunerabilidade e fraqueza humana, a fim de desabafar nossos gritos engasgados de dor, denunciar as injustiças e reconhecer nossa dependência de Deus. E isso é biblicamente saudável. Lamente com o lamento dos profetas e dos salmistas. A lamentação bíblica tem um olho no homem e o outro em Deus. A lamentação bíblica é a porta aberta para a esperança chegar após confessar nossa limitação e nossa fé em Deus. Agora, lamente apenas pelo que deve ser lamentado. Lamente pela dor que sofreu, por não ser o que devia ser ou pelo que queria ter e não teve. Se passar disso, ou passar muito tempo lamentando, o lamento pode se tornar em murmuração, incredulidade e ingratidão. E a lamentação que era saudável para nossa alma passa a ser doentio e pode matar nosso interior aos poucos. Porque se torna numa ofensa ao caráter bondoso de Deus pelo fato de ficarmos cegos diante de seu agir e vivermos com a aminésia das bençãos de Deus em nossa história.
Poderíamos passar horas e horas citando nossas mais diversas decepções e lamentando por elas. Mas, agora pense comigo: Não é a primeira nem a última vez que somos assaltados e vítimas das decepções da vida. A história é cíclica e/ou espiral. Nada é tão novo e nada é tão velho debaixo da terra. Por isso, não podemos nos deixar viver a vida toda na mesmice de nossa lamentação. A lamentação não pode ser uma rotina cíclica em nossa vida. Existem duas opções para reagir as crises de decepção: viver enterrado na lamentação ou viver engajado na esperança do Reino de Deus. Quem vive lamentando a vida toda vai chegar ao ponto de murmurar por nada na vida e ser um decepcionado sem causa. Mas quem olha para a cruz de Cristo decide viver engajado em todas as realidades da vida e pode ainda colher esperança no coração para ter forças de promover alguma transformação. Devemos olhar para cruz para sinalizar a esperança do Reino de Deus e viver cumprindo nossa missão no mundo sem Deus. Por isso, nunca é cedo nem tarde demais para levantar a cabeça e sacudir a poeira da lamentação.
Se você lamenta pelos seus sonhos destruídos, mude seus sonhos e entenda que você deve sonhar o sonhos de Deus. E Deus deseja que você sonhe em ter um relacionamento íntimo de amor com Ele, enquanto serve as pessoas em sua volta. O resto é conseqüência. Agora levante a cabeça e não espere sua vida ficar organizada demais, nem espere o momento ideal chegar, nem muito menos as dificuldades cessarem para você comecar a crêr num mundo melhor e agir. Se você deixar para agir quando sua vida estiver organizada, você nunca deixará de ser um espectador da vida. Porque vida nenhuma vai estar organizada. No máximo vai estar menos desorganizada. Além disso, Deus está agindo em nossas vidas neste instante em meio aos problemas e decepções da vida. Em outras palavras: O Reino de Deus está sendo sinalizado no meio e através das dificuldades do dia a dia. E ainda, se você lamenta pelo seu fracasso como pessoa, lembre-se de que nosso pecado não é um empecilho para a bênção de Deus, assim como nossa obediência não é uma condição para sermos abençoados por Deus. Deus nos abençoa seguindo as iniciativas de sua graça sobre nós. E a cruz é a prova maior da graça de Deus que nos transforma em pessoas melhores, apesar de nós mesmos. E ainda, seu Santo Espírito nos ensina e nos ajuda obedecer a Deus por amor, enquanto produz seu fruto em nosso caráter (Gl 5:22). Abra seu coração e sempre deixe-se encher pelo Espírito Santo e olhe para si mesmo com os olhos de Deus. Assim, nossos olhos devem mirar em quem podemos ser em Cristo e não em quem não conseguimos ser ou não somos por nossos próprios esforços e méritos.
A cruz de Cristo nos faz olhar para a nossa realidade espiritual e político-social com os olhos do Reino de Deus. Nossa lamentável realidade não se limita ao que vemos. Jesus inaugurou o Reino de Deus quando esteve aqui nos ensinando que o sentido da sua vida era servir, porque ele, mesmo sendo nosso Rei, não veio para ser servido, mas veio para servir as pessoas. Cristo tinha muitos motivos para viver lamentando e lamentar vivendo. Ele poderia lamentar porque saiu da destra de Deus Pai para habitar entre nós pecadores. Poderia viver lamentando por ter sido gerado ser humano no ventre de uma virgem suspeita de adultério, fugitiva e perseguida pelo governo. Jesus poderia ter lamentado por ter nascido numa pobre manjedoura, por ter crescido num povo subjulgado por um império rico e poderoso, por viver numa nação governada por um político corrupto que coloca nossos políticos no bolso, por não ter sido recebido pelo seu povo como filho de Deus, por ter sofrido perseguição dos religiosos, por ter sido rejeitado e humilhado pela mesma multidão que num dia o recebeu como Rei e no outro dia gritava furiosamente crucifica-o; e ainda, por ter sido traído por dinheiro, negado por vergonha e abandonado por covardia dos seus 12 amigos quando ele mais precisava deles. Jesus tem todos os motivos do mundo para viver decepcionado com a vida que viveu e lamentar vivendo. Mas seu grande amor que nos constrange nos ensinou a levantar a cabeça e servir as pessoas, mesmo quando nossa vida está desorganizada pela decepção e pelo lamento. Agora, concentre-se nele, Jesus Cristo, que não mediu esforços para vencer a decepções da vida injusta que teve para provar o quanto te ama. E mesmo assim, Jesus achou que sua vida valeu apena, porque seu serviço na cruz nos ofereceu perdão dos pecados, reconciliação com Deus e salvação eterna. E isto vale a pena porque valeu a tua vida.
Impactados com a vida de Jesus, temos que nos arrepender de sermos apenas analistas da vida, espectadores do mundo, comentaristas do cotidiano e juízes morais dos outros. Passamos muito tempo engajados em teorias, projetos e discursos enquanto nos enterramos em nossas murmurações, críticas e julgamentos que nem se comparam com a denúncia profética dos profetas veterotestamentários. Passamos muito tempo sendo consumidos pela inércia de nosso ócio egoísta que vive isolado, arrebatado e alienado do sofrimento das pessoas que estão em nossa volta. Sublimamos nossa missão de encarnar o evangelho no mundo fugindo para a “espiritosfera” de nossos cultos extáticos ou quando nos escondemos na burocracia das reuniões dos gabinetes do clero de nossa denominação. Mas a encarnação de Jesus é o modelo de engajamento que temos que viver para transformar as vidas dos necessitados em nossa volta. A vida de Cristo nos ensina a não esperar fazer grandes projetos, empreitadas, organizações e grandes mutirões para mudar o mundo. Em muitos momentos, temos que servir a Deus despido de títulos, cargos, lugar de destaque, momento ideal e vida organizada, e até mesmo, servir sozinhos sem nenhuma recompensa ou reconhecimento dos holofotes e aplausos da mídia. Faça como Cristo: Sua encarnação em nosso mundo é o modelo de vencer nossa decepcionante realidade para vivermos engajados no meio das necessidades das pessoas oprimidas e de uma forma ou de outra ajudá-las. Talvez seu nome nunca seja citado pela mídia ou até mesmo seja esquecido. Mas, lembre-se que a história é feita por anônimos que fazem uma parceria com Cristo, a fim de servir as pessoas no poder do Espírito Santo sinalizando seu Reino de paz, amor e justiça. Assim, se uma pessoa respirou melhor por sua causa, então sua vida valeu a pena, o Reino de Deus foi visto e nós celebramos a vida.
Eu te garanto que nunca seremos servos engajados na vida real, enquanto nosso ego pensar somente em nossa realização pessoal, esperar sempre um milagre espetacular todos os dias, ter dinheiro suficiente, esperar o momento ideal chegar e ter todos os recursos disponíveis para servir. Sair do muro das lamentações da vida para o engajamento é conviver com frustração, perdas, ganhos, decepções, esperança, injustiças, amor, alegrias, derrotas, risos, lágrimas, calma, agitação, paz, ansiedade, e, essencialmente, coragem para mudar e coragem para envolver-se com todos e com a vida como ela é. Somente quando tivermos coragem para envolver com a vida e com essa mesclagem de sentimentos confusos e opostos é que poderemos sair do lamento para o engajamento. Que Deus nos ajude a fazer esta transição: do lamento ao engajamento.
Em Cristo, que viveu o Reino de Deus engajado entre nós
Escrito em 2006
Jairo Filho

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