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segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Só o Filho interpreta o rosto do Pai


 "Numa roda de amigos alguém mostrou uma fotografia, onde se via um homem de rosto severo, com o dedo levantado, quase agredindo o público. Todos ficaram com a idéia de se tratar de uma pessoa inflexível, antipática, que não permitia intimidade.
Nesse momento, chegou um rapaz, viu a fotografia e exclamou: "É meu pai!"
 Os outros olharam para ele e, apontando a fotografia, comentaram: "Pai severo, hein!"
 Ele respondeu: "Não! Não é não! Ele é muito carinhoso. Meu pai é advogado. Aquela fotografia foi tirada no tribunal, na hora em que ele denunciava o crime de um latifundiário que queria despejar uma família pobre que estava morando num terreno baldio da prefeitura há vários anos! Meu pai ganhou a causa. Os pobres não foram despejados!"
Todos olharam de novo e disseram: "Que fotografia simpática!"
Como por um milagre, ela se iluminou e tomou um outro aspecto. Aquele rosto tão severo adquiriu os traços de uma grande ternura! As palavras do filho mudaram tudo, sem mudar nada!
As palavras e gestos de Jesus, nascidas da sua experiência de filho, sem mudar uma letra ou vírgula sequer, mudaram o sentido do Primeiro Testamento (Mt 5,17-18). O Deus, que parecia tão distante e severo, a ponto de o povo não ter mais coragem de pronunciar o seu nome, adquiriu os traços de um Pai bondoso de grande ternura!"[1]

Quando lemos as Escrituras e nos relacionamos com Deus, podemos perceber que só o filho interpreta corretamente o rosto do Pai e sua vontade. Por isso, leia a Bíblia e veja o rosto de Deus por meio dos olhos de Jesus. Você só consegue a chave hermenêutica da Bíblia quando conhece Jesus. A menos que você conheça a Jesus, ler a Bíblia é como andar numa galeria de pintura com as luzes apagadas. Quando Jesus veio ao mundo, Ele completou o quadro, acendeu as luzes e encarnou toda obra de arte.

Assim, olhe para o Filho e veja o Pai. Olhe para o Filho e veja o ser humano como Deus pretendeu que fôssemos.  Olhe para Deus com o olhar do Filho e seja o filho semelhante ao Filho que chama Deus de Pai.


Pense nisso!


Em Cristo, o rosto de Deus


Jairo Filho

domingo, 29 de agosto de 2010

A grande omissão


Era uma vez uma ilha paradisíaca rodeada por um mar bravo e perigoso; habitada por uma vila de pescadores.

Conta-se que estes pescadores eram bons trabalhadores, amigos uns dos outros, conservavam um caráter impecável, valorizavam e preservavam a natureza e a vida em comunidade.

Tudo corria muito normal, até que em um dia pacato, surge uma notícia urgente que abalou a rotina dos pescadores:

- "Aconteceu um naufrágio! Aconteceu um naufrágio! Tem muita gente ferida se afogando. Vamos ajudá-los". Gritou um pescador desesperado.

Sem pestanejar, todos os pescadores unidos foram ajudar os sobreviventes daquele terrível naufrágio engolidos pelo mar bravo daquela ilha.

No fim das contas, aqueles simples nativos se transformaram em heróis ao pescarem os feridos e afogados com muito sucesso. Após esse salvamento, os pescadores reconheceram que sua missão na vida era de resgatar náufragos daquele mar perigoso.

Então, os pescadores se reuniram e resolveram se preparar e se organizar melhor para um outro possível naufrágio.

E foi isto mesmo que aconteceu: um outro naufrágio apareceu. E os pescadores, agora de plantão, preparados e organizados, se lançam ao mar para pescar as pessoas engolidas pelas ondas. Com muito mais rapidez e eficiência, o resgate é feito com muito mais sucesso do que o anterior. E esse resultado contagia todos os pescadores com muita alegria, pois confirma mais ainda a missão que eles receberam da vida.

Animados com o sucesso dos resgates que fizeram, os pescadores decidem construir uma casa que servirá de pronto socorro e escola para treinar novos pescadores salva-vidas. E assim, eles fazem uma arrecadação mensal para cobrir as despesas da construção e manutenção dessa casa de salvação.

Depois de algum tempo, a casa de salvação está pronta. Chega o dia da inauguração. Quando todos estavam apostos para cortar a faixa inaugural, surge, de repente, a notícia de mais um naufrágio.

O desespero e a indecisão tomam conta de todos. O desespero pela emergência do resgate e a indecisão para saber se continuam ou não com a inauguração. Diante desse impasse, uns decidem continuar a tão esperada inauguração para depois fazer o resgate. E assim, demoram tanto para entrarem no mar que a salvação dos náufragos não tem o mesmo sucesso que as anteriores. Apesar do resgate ter sido feito, alguns náufragos chegam à praia com muitos ferimentos graves, e, como conseqüência da demora do resgate, morrem agonizando de dor nas areias da ilha.

Esse episódio comove muitos pescadores. Como conseqüência disso, é feita uma reunião para apurar os culpados pela omissão do resgate.

Após a apuração dos fatos, bem no fim da reunião, fica decidido sobre a necessidade de eleger uma diretoria da missão dos pescadores para tomar as medidas cabíveis diante de importantes decisões.

Para a felicidade de todos, no outro dia, os pescadores se reúnem mais uma vez para a eleição da diretoria da missão. E no fim desse mesmo dia, a diretoria é eleita com uma grande festa numa balada que dura a noite inteira.

Como parte do primeiro mandato, o presidente da missão e toda a diretoria fazem um novo programa de treinamento e capacitação para novos pescadores. Eles promovem conferências e congressos, criam mais departamentos de finanças, reformam a casa da salvação construindo mais salas, gastam muito dinheiro comprando ar-condicionado, mesas e cadeiras confortáveis, computadores sofisticados de ultima geração, muito material supérfulo para escritório, gastam muito tempo em reuniões criando um regimento interno complexo e legalista, e promovem mensalmente festas comemorativas de confraternização dos funcionários.

Certo dia, em uma determinada reunião burocrática da instituição, os pescadores-executivos receberam mais uma notícia de um naufrágio. Quando souberam do naufrágio, a diretoria decidiu que seria muito arriscado entrar no mar naquela hora. O secretário de obras tomou a palavra e se desculpou dizendo que a casa da salvação estava muito limpa e organizada e as pessoas feridas iriam sujar tudo. Se a casa da salvação receber gente imunda vai acabar com os planos de fazer uma nova plástica e lipo nas paredes novas da casa. O escrivão se justificou dizendo que era necessário ter ordem no processo de entrada dos náufragos na vila; e, naquele momento, já tinha passado seu expediente de trabalho.

Além disso, enquanto acontecia o naufrágio, toda a equipe de resgate estava dispersa ocupada no vício do ócio burocrático das desculpas. Os profissionais de saúde estavam de braços cruzados se preparando para a festa de logo mais a noite. Os salva-vidas estavam fazendo natação e musculação a fim de aprimorar seus músculos no espelho narcisista. Os pilotos dos barcos estavam brincando de desmontar o motor do barco, enquanto os motoristas das ambulâncias estavam no lava-jato numa competição de limpeza. Os alunos do treinamento de salva-vidas estavam na biblioteca fazendo uma pesquisa para a sua tese de final de curso. E os demais voluntários do resgate estavam desocupados experimentando a melhor fantasia para a festa de logo mais.

Enfim, a história termina com o mais trágico naufrágio de todos os tempos. Os feridos que conseguiram chegar à praia morreram agonizando de dor à espera de socorro. No fim de tudo, ninguém sobreviveu.

Aqueles simples pescadores, amantes do mar e da vida, trocaram o barco, os remos e as redes, pela burocracia dos papéis inúteis da institucionalização.

A casa da salvação se transformou na casa da omissão.

Qualquer semelhança com a igreja evangélica não é mera coincidência.

Em Cristo, que resgatou homens pecadores para torná-los pescadores de homens.

Jairo Filho.

sábado, 28 de agosto de 2010

O autor do livro

Uma moça ganhou um livro. Ao ler as primeias páginas, não gostou, e imediatamente engavetou.

Certo dia, ela conhece um rapaz e se apaixona por ele. Numa determinado encontro, o rapaz, demonstrando a reciprocidade do amor entre ambos, presenteia a moça com um livro de sua autoria. Ao receber o livro de presente, a moça lê imediatamente o livro todo com muito interesse, porque estava muito apaixonada pelo autor do livro.

Quando a moça acabou de ler, foi guardar o livro na mesma gaveta que estava guardado aquele primeiro livro desinteressante, esquecido e empoeirado. E para sua surpresa, ela viu que o primeiro livro era o mesmo livro que ela tinha acabado de ler com muita paixão e interesse.

Quando conheçemos e estamos apaixoandos pelo autor do livro, a leitura fica mais interessante e as palavras do livro se tornam uma poesia amorosa que encontram morada no nosso coração.

Conheça e ame Jesus, o autor da Bíblia. E assim, a leitura bíblica encontrará mais sentido para o teu coração.

Em Cristo, o autor do livro da vida que se fez carne e habitou entre nós

Jairo Filho

Espiritualidade (des)encarnada

 Certa vez, um pastor estava tão concentrado, orando e preparando estudos bíblicos para a igreja, que não escutou seu filho pequeno chorar no quarto ao lado. Mas o avô ouviu, desceu as escadas, pegou o bebê no colo e ninou-o até que voltasse a dormir.

Então, o avô aproximou-se de seu filho pastor, ainda imerso nos livros, e perguntou: - Meu filho, o que você está fazendo?

O Pastor responde: - Pai, estou meditando nas Escrituras e preparando estudos bíblicos.

O avô sabiamente respondeu: - Não sei o que você está estudando, mas se o deixa surdo ao choro de uma criança, não é a Bíblia que você lê e estuda.

Viver a vida da cristã é ouvir o lamento silente dos aflitos, solitários, marginalizados, pobres, doentes, impotentes - e responder com a compaixão que gera a ação do socorro.

Isso nos faz cantar o que o João Alexandre lamentou na música "Em Nome da Justiça": "Enquanto se canta e se dança de olhos fechados, tem gente morrendo de fome por todos os lados. O Deus que se canta nem sempre é o Deus que se vive, não. Pois Deus se revela, se envolve, resolve e revive".

Assim, vale repensar: A experiência espiritual dos estudos teológicos e o trabalho ministerial devem ser feitos de joelhos diante do Pai nosso que está nos céus, com olhos abertos para a vida real, com os ouvidos atentos para ouvir o clamor do próximo, com a mão estendida para servir os necessitados, e com todo corpo encarnado nesse mundo.

Em Cristo, que encarnou-se entre nós para priorizar as pessoas na sua agenda ministerial.

Jairo Filho

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

O guru, o gato e a religiosidade

 Havia um guru religioso que meditava todo dia debaixo de uma árvore juntamente com seus discípulos e depois saiam para servir os pobres. Quando a meditação era iniciada o gato de estimação do guru dava seus miados e pulos com muitas travessuras, atrapalhando a cerimônia religiosa.

Certo dia, o guru teve a idéia de amarrar o gato na árvore enquanto faziam a meditação para que não fossem incomodados e assim pudesse meditar em paz e servir aos pobres com mais tranqüilidade. Com o passar do tempo, o guru decidiu fazer uma escala para que cada um de seus discípulos amarrasse o gato em toda meditação. E assim, os anos se passaram e a cena se repetia até que o velho guru faleceu.

Mesmo após a morte do guru, os discípulos entenderam que deveriam preservaram o hábito de amarrar o gato toda vez que havia a meditação, pois esta, presumiram os discípulos, era a vontade do seu grande guru religioso. E assim, criaram uma regra: Só é permitido e possível fazer meditação amarrando o gato na árvore. Quem não amarrar o gato, não poderá fazer a meditação. E essa regra foi sendo passada e obedecida por muitos discípulos.

Um dia o gato do guru morreu. E com isso, trouxeram outro gato e o amarraram para fazer a meditação, já que a meditação só é possível e permitida se houver um gato amarrado. Durante séculos, gerações e gerações de discípulos foram se multiplicando, preservando e transferindo a idéia da meditação com o gato amarrado. E concluíram que só é possível acontecer uma boa meditação se o gato estiver perto. Essa idéia evoluiu e concluíram que o gato era sagrado para a meditação, elevando-o ao status de divindade.

Com o passar do tempo, muitos começaram a escrever livros sagrados e confissões de fé sobre o gato e a meditação. A partir disso, foram criados debates sobre a relação do gato com a meditação. E chegaram a conclusão de que o gato era um deus. Assim, o gato se tornou a principal figura da religiosidade desse povo com direito a imagem de escultura e adoração com o povo prostrado em torno do gato.

Com isso, houve uma explosão de crescimento numérico de religiosos adoradores do deus gato e surgiram várias facções brigando entre si, discutindo qual era a raça correta do gato sagrado, qual a corda sagrada que deveria amarrar o gato e qual a espécie de árvore deveria servir para amarrar o gato. Essas questões produziram ideologias, partidos políticos e guerras religiosas em nome do deus gato. E assim, ninguém mais teve tempo para meditar e servir aos pobres.

Isso é religiosidade.

Qualquer semelhança com Cristo e o cristianismo não é mera coincidência.

Em Cristo, que nunca inventou o  "cristianismo" nem é "evangélico"

Jairo Filho
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