sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A sabedoria de viver a vida sem tédio - Parte 2




video
Apesar do tédio, há esperança no Eclesiastes quando nos diz: “Já não há lembrança das cousas que precederam; e das cousas posteriores também não haverá memória entre os que hão de vir depois delas” (Ec 1:11). Esta constatação do Eclesiastes pode parecer pessimista e nos enterrar de vez no tédio. Mas, na verdade, é uma brecha de esperança. Por mais que cada geração não tenha memória e tudo o que é feito hoje é jogado no lixo da amnésia, há a brecha de esperança contra o tédio com a verdade de que cada geração começa sua existência do zero. Ou seja, nem tudo é tão mais do mesmo assim como interpretamos nas gerações. Cada geração que nasce experimenta tudo novo e de novo. Por mais que para a geração anterior tudo não passe do mais do mesmo todo dia, para a atual nova geração tudo é uma descoberta cheia de novidades, surpresas e encantamento. 

Até mesmo as heranças recebidas podem ser interpretadas, usadas e transferidas diferentemente da geração anterior. Cada geração vai decidir o que fazer com a herança cultural herdada. Cada geração é responsável por inventar seu próprio mundo, seu tempo e sua vida. O que os pais entregam aos filhos é a carga genética, mas as experiências existenciais dos filhos são únicas, mesmo que os pais se vejam neles como cópia ou repetição do ciclo familiar herdado. Nascemos, crescemos, casamos, reproduzimos e morremos, mas cada geração faz isso à sua própria maneira. O que isso significa? Que a plenitude da experiência existencial de cada pessoa e de cada geração é para si mesma original, extraordinária e única. Com isso, podemos meditar em algumas interpretações e atitudes para cultivarmos a sabedoria de viver a vida sem tédio. Vejamos 3 sugestões para quem deseja vencer o tédio. 

1. Para vencer o tédio, viva a sabedoria de olhar para as SINGULARIDADES da vida. Se cada geração começa do zero sem memória, preste atenção nas descobertas peculiares de cada indivíduo, preste atenção nas experiências existenciais de cada pessoa, preste atenção nas interpretações da biografia de cada personagem da história da vida. Não olhe somente para a história cíclica de um povo, nem para as cópias da produção cultural das nações, nem para a repetição das experiências de um clã. Se você se concentrar exclusivamente nisso, você só enxergará estatísticas e números, xerox de biografias, circuitos de rotinas intermináveis e eterna mesmice. 

Olhe para a singularidade dos relacionamentos. É interessante que, mesmo Deus conhecendo tudo sobre todos os povos da terra e conhecendo todos os tempos, estações e histórias do mundo, mesmo assim, o Deus de Israel e de todos os povos, decidiu se revelar, se identificar e se relacionar como o Deus íntimo de pessoas chamando-as pelos seus nomes. Jesus diz que Deus é “Deus de Abraão, Isaque e Jacó” (Ex 3:6; Mc 12:26). Isso porque ele tinha uma experiência íntima de amor com cada um deles em especial. A implicação disso é que Deus não se relaciona conosco somente nos considerando uma estatística ou etnia, mas sim, pessoas e indivíduos diferentes. Se seguirmos essa entoada de sabedoria divina, vamos perceber que Jesus olhava para a singularidade da vida quando chamou e conheceu intimamente seus discípulos pelo nome, caráter e personalidade sem confundi-los nem generalizá-los. Jesus também prestou atenção nas singularidades da vida quando, mergulhado na multidão de toques e abraços, sentiu um toque especial de uma mulher enferma de hemorragia. Além disso, seguido por uma multidão, Jesus enxergou um pequeno homem pendurado numa árvore e o chamou pelo nome para jantar na casa dele. Enfim, Jesus venceu o tédio quando olhava para as singularidades da vida considerando indivíduos em seus relacionamentos interpessoais.  

Da mesma forma, devemos aplicar a sabedoria de Deus em nossos relacionamentos. Por exemplo: O líder religioso, o político, o professor, o pai, o psicólogo, o médico devem trocar a atenção para uma multidão sem rosto pelo olhar singular para cada indivíduo. Num auditório, cidade, sala de aula, casa, consultório, hospital há multidões, estatísticas, grupos, parentes, filas de pacientes; enfim, na vida há substantivos coletivos que generalizam as pessoas em conjuntos estereotipados com despersonalização e impessoalidades abstratas. Assim, para vencer o tédio, preste atenção na peregrinação existencial de cada crente, preste atenção nos problemas comuns a cada cidadão, preste atenção nos níveis de aprendizado de cada aluno, preste atenção nos afetos de cada filho, preste atenção na história de vida de cada paciente, preste atenção na dor de cada enfermo.  Por exemplo: Todos nós sabemos que todos os dias um monte de gente nasce, mas essa informação tem um impacto completamente diferente quando essa “gente” é seu filho. Todos os dias pessoas morrem, mas perder um pai ou amigo é coisa completamente diferente. Enfim, cada um de nós necessita de uma atenção especial, e essa atenção é a arma para vencer o tédio nos relacionamentos. O que nos faz iguais é que somos diferentes.

Olhe para a singularidade nos cenários da natureza. Se cada geração começa do zero, isso implica dizer que cada geração tem um jeito novo de receber, interpretar, usar e se relacionar com tudo o que há na vida. Além da singularidade dos relacionamentos, Deus nos ensina, em Jesus, a singularidade das relações com a natureza. O Deus criador do universo não enxerga somente a criação apenas como um todo, mas decide chamar as estrelas do céu pelo nome (Is 40:26). Imagine a quantidade de nomes de estrelas. Imagine a capacidade de Deus de nunca ser atingido pelo tédio na sua criação quando olha para cada elemento da criação como se fosse único e íntimo seu. Isso é espetacular. 

Isso implica dizer que uma coisa é falar sobre rios, outra coisa é falar daquele rio que você aprendeu a nadar, ou daquele rio Tiête que está poluindo a cidade inteira. Uma coisa é falar sobre o dia a dia, outra coisa é falar de dias especiais como 11 de setembro no World Trade Center ou o dia de meu aniversário, o dia 28 de outubro de 1982. Uma coisa é falar sobre o trajeto contínuo do vento, outra coisa é falar daquele vento gostoso no corpo quando você está morrendo de calor após uma saudável caminhada. Uma coisa é falar sobre o elemento fogo na natureza, outra coisa é falar sobre o dia quando aquele menino urbano e moderno se aventura nos escoteiros mirins imerso na floresta e descobre como fazer fogo sem usar os métodos convencionais como fósforo ou isqueiro. Uma coisa é falar sobre o fogo na humanidade, outra coisa é falar da tragédia no incêndio ou explosão que matou milhares de pessoas e algumas delas são nossos parentes amados. Enfim, precisamos prestar atenção na singularidade dos relacionamentos pessoais e na singularidade na natureza para vencer o tédio.      

2. Para viver sem tédio, viva a sabedoria de olhar para a DINÂMICA da vida. As gerações estão imersas no clico invariável de nascer, crescer, reproduzir e morrer; salvo se a morte aparecer como acidente e tragédia antes do previsto. Se olharmos para a vida somente para as gerações, fabricaremos o tédio de interpretar a vida como um vai e vem interminável de gerações na história humana. Mas, quando olhamos para as pessoas como indivíduos que são, perceberemos que a vida é dinâmica. Para vencer o tédio preste atenção na dinâmica da vida e dos relacionamentos. Exemplos: Você não está casado com a mesma pessoa de antes. Essa pessoa não é a mesma que era há 20 anos. Como é possível um pastor está na mesma igreja há 50 anos? É porque ele não foi o mesmo pastor desde quando chegou à igreja. Com o passar dos anos a maturidade muda teu jeito de interpretar a cidade que você mora, o relacionamento com as pessoas que você convive, a mesma Bíblia que você lê desde criança, a profissão que você exerce desde sua formação. Enfim, a vida é dinâmica e nunca nos deixa estacionar na inércia do tédio.

3. Para vencer o tédio, viva a sabedoria de olhar para a INSACIABILIDADE da vida. Preste atenção na capacidade humana de fazer o que sempre se fez como se fosse a primeira vez. Vejamos pelo menos 4 exemplos: 

video

Esta cena é do filme "A Estrada". Esse filme conta o drama pós-apocaliptico de um pai e filho sobrevivendo no mundo destruído. A cena mostra eles em busca de comida e o pai encontra, talvez, a última coca-cola do mundo. O pai já conhecia a coca-cola, mas o filho ainda não, pois nascera após a destruição do mundo. O interessante notar é que o filho experimenta a coca-cola pela primeira vez e o pai degusta como se fosse a primeira vez. Isso nos induz a perguntar: Quantas vezes bebeu água ou refrigerante na vida? Sugestão: Beba como se fosse a primeira e a ultima vez na vida. Assim, o tédio irá embora. Da mesma forma, você já teve a sensação, depois de degustar um farto churrasco, de que comeu tanto e naquele momento deseja nunca mais comer na vida, mas logo após da digestão você come com tanto gosto outra vez como se fosse a primeira vez? 

Outro exemplo é o banho. Nós tomamos banho todo dia, mas todo dia quando entramos debaixo do chuveiro parece que é cai sobre nós um dilúvio, nunca antes tomado, que encharca nossa alma com limpeza e renovação. 

Amizade também proporciona a insaciabilidade quando, em cada encontro com amigos, se torna especial a necessidade das conversas, experiências, abraços, afetos. Da mesma forma é o amor entre homem e mulher que tem a capacidade de se regenerar como se fosse a primeira vez. E por falar nisso, você se lembra do filme "Como se fosse a primeira vez" É a história de Henry Roth (Adam Sandler) que se apaixona por Lucy Whitmore (Drew Barrymore) que sofre de um tipo de amnésia que a faz ela esquecer, de um dia para o outro, as pessoas que ela se relaciona. Com isso, Henry é obrigado a conquistá-la todos os dias como se fosse a primeira vez.

Outro exemplo é a fé, o culto, a oração, a música de adoração, a leitura bíblica e pregação. Deus nos oferece a capacidade de reciclar diariamente a fome por estas práticas espirituais como se fossem vividas e experimentadas pela primeira vez. 

Mas, o que significa essa insaciabilidade? Significa que nós fomos feitos para viver um dia de cada vez, um momento de cada vez. É por isso que gosto das palavras do Lulu Santos, um Eclesiastes moderno: “Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia; tudo passa, tudo sempre passará. A vida vem em ondas como o mar, num indo e vindo infinito”. O que foi não voltará a ser, embora a vida tenha suas idas e vindas. 

Diante de tudo o que pensamos, podemos concluir que o sábio não é aquele que busca a novidade para se saciar. Sábio é aquele que consegue entrar na rotina da vida e fazer as coisas repetidas com a sensibilidade de perceber as singularidades e a dinâmica da vida, desenvolvendo a insaciabilidade de viver e fazer tudo na vida como se vivesse e fizesse tudo pela primeira vez.

Em  Cristo, minha novidade de vida que me faz viver cada dia como se fosse a primeira e ultima vez

Jairo Filho  

Sugestão de Leitura: Kivitz, Ed René - O livro mais mal-humorado da Bíblia - Ed Mundo Cristão, 2009, 222 págs

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts with Thumbnails